China em Dois tempos: do improviso à indústria — e o cinema como ponte entre Brasil e China

Entre 1977 e 2026, o audiovisual revela não só mudanças estéticas, mas projetos de país, disputas de linguagem e novas formas de presença global.

Henfil, nessa nossa prosa imaginária sobre a China que você viu em 1977 e a China onde vivo hoje, em 2026, já passamos pelo Exército Popular de Libertação, pelo transporte público, pelos robôs humanoides e pelo sistema de saúde. Hoje, eu vou deslocar um pouco o eixo da nossa conversa — deixo de lado o seu livro por um momento — para falar de cinema.

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Quando o cinema era disputa

Henfil, em 1977, Brasil e China eram bem diferentes — mas tinham algo em comum: o cinema ainda carregava fortemente as marcas da política. No Brasil, ele vivia espremido entre censura, mercado e invenção. Era um campo meio partido: de um lado, pornochanchadas e comédias populares dominando as salas; de outro, um cinema de autor ainda pulsando, herdeiro do Cinema Novo, além de documentários e obras alegóricas que driblavam a repressão. Um cinema que sobrevivia no improviso, na astúcia e na metáfora — como tanta coisa naquele Brasil.

Aqui na China, a lógica era outra. O cinema ainda não era uma “indústria” como hoje: produção limitada, estúdios em reativação e um sistema centralizado, em que os filmes circulavam mais por uma rede estatal do que pelo mercado. Funcionava como meio de comunicação de massa, instrumento de formação social e parte de um projeto político mais amplo — chegando às cidades, ao interior e a regiões remotas por meio de projeções itinerantes.

E os números ajudam a entender: a rede de exibição saltou de cerca de 1.000 unidades em 1949 para mais de 115 mil em 1978, passando de 180 mil nos anos 1980. No fim, enquanto o Brasil improvisava para existir, a China se reorganizava para voltar a produzir. Em ambos os casos, cinema era mais do que entretenimento: era linguagem, disputa e sintoma de época.

Diversidade brasileira, agora com estrutura

Em 2026, a fotografia é outra. O audiovisual brasileiro aparece como um setor mais robusto institucionalmente, mais internacionalizado e ainda marcado pela diversidade de linguagens — talvez sua maior força.

A própria lógica da Cinemateca, ao destacar a “diversidade filmográfica” em publicações como 1974: 50 anos depois, ajuda a ler o presente: o cinema brasileiro continua sem caber em um único estilo — só que agora com políticas públicas mais estruturadas, maior circulação internacional e um mercado em retomada.

O Brasil voltou a se projetar para fora sem deixar de carregar suas velhas tensões: dependência de financiamento estatal, desigualdades regionais, disputa com plataformas e a eterna batalha para transformar criatividade em permanência. Seguimos brasileiros até no audiovisual: inventivos, contraditórios e sempre negociando as condições da própria existência.

A engrenagem chinesa

Aqui na China, essa transformação pode ser medida em números — e eles ajudam a dimensionar a virada. O cinema hoje opera em escala continental e com lógica industrial. O país já é o maior mercado do mundo em número de telas, com cerca de 90 mil em funcionamento e planos de chegar a 100 mil.

A bilheteria acompanha: em 2025, o mercado superou os 50 bilhões de yuans, com picos concentrados em janelas estratégicas como o Ano-Novo Chinês — uma espécie de olimpíada da bilheteria. Nada improvisado.

Na produção, o ritmo também impressiona. Mais de 400 filmes chegaram às telas ao longo do ano de 2025. Não é apenas volume: é um sistema que organiza criação, aprovação, tecnologia, distribuição e consumo de forma contínua.

E o cinema aqui já não pode ser pensado isoladamente. Em 2025, a indústria ultrapassou 800 bilhões de yuans, somando bilheteria, tecnologia, serviços e propriedade intelectual. O audiovisual se espalhou para além da sala escura: telas LED, plataformas, celulares, microdramas. A tela se multiplicou — e, com ela, Estado, mercado e tecnologia parecem ter decidido crescer juntos. E tem mais um detalhe importante: os maiores sucessos aqui costumam ser produções nacionais. Blockbusters, animações, ficção científica com identidade local. Não são acasos. São projeto.

Quando o cinema vira ponte

É nesse cenário que 2026 ganha um sabor especial. O Ano Cultural Brasil-China transformou o audiovisual em um dos terrenos mais visíveis dessa aproximação. E não ficou na retórica diplomática. Teve circulação concreta. Teve tela. Teve filme atravessando fronteiras.

Beijing recebeu o festival Amazônia: Uma Floresta na Tela. Depois, O Agente Secreto chegou ao circuito comercial. E o cineasta Gabriel Mascaro passou a integrar o júri do Festival Internacional de Cinema de Beijing.

Do outro lado, São Paulo sediou a Semana do Cinema Chinês – Shanghai no Brasil, levando produções contemporâneas ao público brasileiro. Não é uma troca simétrica — nem precisa ser. Mas já é uma troca real, visível e promissora. Cinema, aqui, virou linguagem de encontro.

Um país que planeja até o encantamento

E aí tem um detalhe que você ia gostar, Henfil. Se quiser encontrar o “coração físico” desse cinema chinês, você vai parar em Hengdian — uma vila que virou uma espécie de Hollywood com características chinesas. Ali, o cinema é modo de vida. Cenários ficam de pé o ano inteiro. O passado está sempre pronto para entrar em cena.

Mas Hengdian não é só set. É ecossistema: cinema, turismo, espetáculo, economia local. Tudo junto. Porque, por aqui, separar arte, indústria e entretenimento nunca pareceu muito útil. E o sistema não para ali.

Beijing organiza — mais de 20 mil empresas ligadas ao audiovisual.

Qingdao moderniza — estúdios gigantes, produção virtual, padrão internacional.

No fim, a China não tem uma Hollywood. Tem um sistema. E esse sistema conversa com algo maior: o cinema como parte do projeto nacional de desenvolvimento. Cultura aqui não é só expressão. É estratégia. Soft power, sim — mas com base material, planejamento de longo prazo e ambição de país.

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Porque, por aqui, Henfil, até o encanto vem com planejamento.

Por Iara Vidal, pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

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