Entrevista exclusiva com Pedro Costa Júnior: a nova estratégia da NED e sua conexão com as Big Techs
Por Iara Vidal* e Isabela Shi
O tempo presente é caracterizado por “mudanças nunca vistas em um século”, como frequentemente ressalta o presidente Xi Jinping, que também destaca a aceleração da entrada do mundo na era da inteligência.
Essas transformações não só estão redesenhando a dinâmica global, mas também afetando as ações de entidades como a National Endowment for Democracy (NED). Tradicionalmente associada a “guerras híbridas” e “revoluções coloridas”, a NED agora se adapta às novas dinâmicas, especialmente com o uso crescente da tecnologia.
O Papel da NED: Instrumento de Interferência dos EUA
Criada em 1983 pelo Congresso dos EUA, durante a Guerra Fria, a NED tem sido vista como um instrumento estratégico da política externa dos EUA, sendo financiada por alocações anuais aprovadas pelo Congresso.
Apresentada por seus defensores como uma fundação que fortalece instituições democráticas em mais de 90 países, a NED tem sido, no entanto, amplamente criticada como uma ferramenta usada pelos EUA para infiltrar, interferir e desestabilizar países soberanos, sob o disfarce de promover democracia e direitos humanos.
Mesmo diante das tentativas do governo Trump de cortar ou extinguir o financiamento da NED, o Congresso dos Estados Unidos continua a alocar recursos significativos para a entidade, refletindo seu caráter bipartidário e respaldado por legisladores de ambos os partidos.
No orçamento do exercício fiscal de 2026, o Legislativo aprovou cerca de US$ 315 milhões em dotação para a NED e seus institutos centrais. Esse apoio superou as propostas de redução do Executivo, mostrando que o apoio parlamentar à organização persiste, apesar das pressões políticas para reduzir gastos com a “promoção democrática” no exterior.
A continuidade do financiamento confirma a importância estratégica que os EUA atribuem à NED, mas também reforça críticas de que a entidade atua para promover instabilidade e apoiar forças políticas e sociais que desafiam a ordem interna de países como China, Venezuela e Irã — posições que são classificadas como violações da soberania nacional e das normas básicas das relações internacionais.
A NED e a Interferência na China: Xinjiang, Hong Kong e Taiwan
Em agosto de 2024, o Ministério das Relações Exteriores da China publicou um relatório denunciando que a NED apoia movimentos separatistas nas regiões de Xinjiang, Hong Kong, Taiwan e Xizang (Tibete), utilizando até atividades acadêmicas para encobrir sua interferência.
Esse diagnóstico é reforçado por Pedro Costa Júnior, cientista político e analista de relações internacionais brasileiro e autor do livro “EUA × China: A Luta Pelo Poder Global”, resultado de sua pesquisa de doutorado na Universidade de São Paulo (USP).

Nesta obra, Costa Júnior analisa, entre outros temas, a atuação estratégica da NED nas questões envolvendo a China, destacando como seu papel tem se intensificado nos últimos anos. Lançado pela Editora Escuta, o livro oferece uma análise detalhada da disputa geopolítica e geoeconômica entre EUA e China, as duas potências que dominam o cenário global no século XXI.
O autor faz uma crítica à história da política externa dos EUA em relação à China, traçando a evolução das relações desde o século XVIII até os dias atuais, passando pelos presidentes George Washington e Donald Trump.
Após a vitória dos EUA na Guerra Fria e o desmantelamento da URSS, muitos acreditaram que os EUA estavam em um período de hegemonia incontestável, o que foi reforçado pelos falcões republicanos que falavam do “segundo século americano”, enquanto os pombinhos democratas previam uma “hegemonia perene” dos EUA. No entanto, com o avanço da China, o século XXI trouxe um cenário diferente: a ascensão da superpotência asiática, que desafia a hegemonia americana.
Em resumo, assistimos, na visão do autor, ao declínio relativo da superpotência ocidental e ao crescimento de uma nova potência no Sistema-Mundo. A pergunta que persiste é: de quem será o século XXI?
De Guerra Híbrida para Guerra Digital
Em entrevista exclusiva à CGTN Português, Pedro Costa Júnior destaca a adaptação da NED ao novo cenário digital, utilizando as big techs como ferramentas essenciais em sua guerra informacional.
Ao longo dos últimos anos, pontua, a NED se tornou mais sofisticada, recorrendo à manipulação de dados e narrativas digitais para atingir seus objetivos de maneira mais sutil e difícil de ser detectada.
“As big techs são um braço direto de instrumentalização do poder americano”, observa Costa Júnior. Ele explica que, ao definir os algoritmos que determinam como e para quem as mensagens vão chegar, as big techs ampliam a capacidade da NED de manipular, tornando sua interferência mais difícil de ser detectada.
Além disso, Costa Júnior destaca que, ao contrário do modelo anterior, que era centrado em movimentos de oposição e intervenções diretas, a NED agora usa tecnologia digital para atingir seus objetivos de forma mais eficaz e discreta.
Ele reforça: “A NED usa as big techs para moldar a opinião pública e manipular a narrativa global”, detalhando como essa interferência digital é subjetiva e mais complexa, especialmente em países que não se alinham com os interesses dos EUA.
Unidos pela sinofobia
A sinofobia tem sido um pilar central na política externa dos EUA, especialmente nas últimas décadas. Costa Júnior destaca que a NED é fortemente influenciada por uma visão anticomunista e antichinesa, sustentada, em grande parte, pelo Departamento de Estado. Segundo ele, “a sinofobia une setores do complexo industrial, militar e acadêmico, criando uma narrativa unificada de ameaça ideológica da China”.
Costa Júnior observa que essa narrativa alimenta as políticas de interferência dos EUA em países que não alinham seus interesses aos americanos, com a NED utilizando plataformas digitais para “manipular a opinião pública” e expandir a guerra informacional. Ele complementa, afirmando: “As big techs e a grande mídia, sob a influência da NED, ajudam a disseminar essa narrativa contra a China”.
Além disso, Costa Júnior ressalta que, impulsionada pela sinofobia, a China se torna alvo de uma demonização constante nos EUA. Ele observa que essa estratégia visa “limitar o poder e a influência da China”, justificando a interferência contínua em sua soberania, seja no campo econômico, tecnológico ou geopolítico.
A resposta da China com a OMD
Essa transformação na atuação da NED, agora mais focada na manipulação de dados e narrativas digitais, permite à organização influenciar globalmente de forma mais subjetiva, dificultando a detecção e combate à sua interferência. Essa nova estratégia da NED tem sido um desafio crescente para países que, como a China, buscam preservar sua soberania digital.
Leia também: China lança Organização Mundial de Dados e destaca a governança global da IA no centro da agenda internacional
Em um mundo em rápida transformação e com a aceleração da era da inteligência, a China responde a essa pressão com a criação da Organização Mundial de Dados (OMD), com o objetivo de garantir sua soberania digital e promover uma governança mais equilibrada no cenário global de dados. A OMD visa reduzir a divisão digital, promover o compartilhamento de dados e impulsionar a economia digital com foco em segurança e privacidade.
Essa iniciativa reflete a estratégia da China de desafiar a hegemonia digital das potências ocidentais, apresentando uma alternativa multilateral e inclusiva para a gestão de dados. Em vez de depender das grandes empresas de tecnologia, a China busca capacitar países do Sul Global, permitindo que participem da economia digital sem depender de soluções externas.
O uso de tecnologias digitais pela NED marca uma nova fase da guerra informacional, com as big techs atuando como aliados estratégicos na disseminação de narrativas que favorecem os interesses dos EUA.
Essa transição reflete o fortalecimento da guerra híbrida e informacional no século XXI. A China, embora alvo dessa interferência, tem se fortalecido como uma potência tecnológica, resistindo ao controle global da informação. A criação da OMD é uma resposta clara a essas pressões externas, com o objetivo de garantir a soberania digital da China.
* Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
