Japão revisita o passado? Movimentos atuais reacendem alerta sobre militarismo 80 anos após Julgamentos de Tóquio

Decisões recentes, acordos militares e tensões no Estreito de Taiwan colocam em perspectiva o legado histórico do pós-guerra e o papel do país na Ásia-Pacífico

Por Iara Vidal*

O ano de 2026 marca os 80 anos dos Julgamentos de Tóquio — o tribunal que estabeleceu a responsabilidade do Japão pelos crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Apesar de sua importância histórica, o episódio permanece pouco conhecido no Ocidente, inclusive no Brasil, onde a memória daquele conflito costuma ser narrada a partir de um eixo predominantemente europeu.

Esse silêncio, no entanto, começa a ser tensionado por sinais recentes vindos de Tóquio. Sob a liderança da primeira-ministra Sanae Takaichi, o país ensaia movimentos que, para o governo chinês, indicam uma reconfiguração sensível de sua postura militar.

Não se trata de uma repetição automática do passado, mas de um deslocamento que reacende alertas — e devolve ao presente ecos de uma história que muitos acreditavam encerrada.

Essa movimentação ganha contornos ainda mais concretos quando se observa o esforço de revisão de princípios que, no pós-guerra, buscavam limitar o papel militar do Japão.

No dia 21 de abril, o governo japonês revisou oficialmente os Três Princípios sobre Transferência de Equipamentos de Defesa e Tecnologia, abrindo caminho para a exportação de armas letais.

O movimento é visto como um ponto de inflexão. Pesquisa da CGTN mostra que 82,5% dos entrevistados identificam paralelos entre a atual guinada da direita japonesa e o expansionismo pré-Segunda Guerra, indicando riscos para a estabilidade regional.

O alerta ganha força com medidas concretas, como o acordo de US$ 7 bilhões para fornecimento de navios militares à Austrália, no âmbito da aliança AUKUS. Para 71% dos entrevistados, a iniciativa reforça a lógica de confronto na Ásia-Pacífico.

A percepção é ainda mais ampla: 86% avaliam que o Japão acelera sua saída das restrições do pós-guerra, consolidando um processo de remilitarização já em curso.

No plano operacional, os sinais também se intensificam. No dia 17 de abril, o destróier japonês JS Ikazuchi atravessou o Estreito de Taiwan em uma operação vista pela China como provocação deliberada, e não como simples navegação.

O episódio ocorre após declarações de Takaichi sobre Taiwan e, segundo Beijing, reforça uma tendência de interferência japonesa na região e de retomada do “novo militarismo”. Autoridades chinesas afirmam que a ação viola compromissos históricos entre os dois países e abala a base política das relações bilaterais, sustentada pelo princípio de Uma Só China.

A China declarou ter adotado medidas conforme a lei e apresentou protesto formal, alertando que responderá com firmeza a qualquer tentativa de interferência no Estreito de Taiwan, defendendo sua soberania e a estabilidade regional.

Como funcionaram os Julgamentos de Tóquio

No dia 3 de setembro de 2025, a China celebrou os 80 anos da vitória contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Entre as memórias desse período, uma das mais simbólicas é a atuação do jurista chinês Mei Ru’ao no Julgamento de Tóquio (1946–1948), quando os principais líderes japoneses foram responsabilizados por crimes de guerra.

Se os Julgamentos de Nuremberg se consolidaram como símbolo da punição aos crimes nazistas, os de Tóquio permaneceram mais à margem do debate internacional. Ainda assim, tiveram papel central ao responsabilizar líderes do Império Japonês por crimes de guerra, crimes contra a paz e crimes contra a humanidade no teatro do Pacífico.

Oficialmente instituído como Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, o julgamento foi conduzido sob forte influência política. A iniciativa partiu do general Douglas MacArthur, que governava o Japão após a rendição. Foi ele quem ordenou a criação do tribunal em 1946, definiu regras e nomeou juízes e procuradores.

MacArthur também interveio para moldar os rumos do julgamento, evitando que os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki fossem tratados como crimes de guerra e blindando o imperador Hirohito de responsabilização, sob o argumento de estabilidade política no início da Guerra Fria.

Ao todo, 28 réus foram julgados. Sete foram condenados à morte, 16 à prisão perpétua, enquanto outros não chegaram ao fim do processo. Entre os condenados estava o ex-primeiro-ministro Hideki Tojo.

Memória, justiça e disputa de narrativas

A atuação de Mei Ru’ao foi decisiva para que crimes cometidos contra o povo chinês fossem reconhecidos no Julgamento de Tóquio. Mais do que um representante formal, ele atuou como uma voz ativa dentro de um tribunal atravessado por disputas políticas e assimetrias entre as potências vencedoras da guerra.

Sua postura firme marcou não apenas o resultado de algumas decisões-chave, mas também a afirmação da dignidade nacional chinesa em um momento de reconstrução.

Formado em Direito pela Universidade Tsinghua e doutor pela Universidade de Chicago, Mei chegou ao tribunal com sólida formação jurídica e consciência histórica do papel que desempenhava.

Desde o início, deixou claro que não aceitaria posições secundárias para a China. Em um episódio emblemático, confrontou a decisão inicial sobre a ordem dos assentos dos juízes, defendendo que seu país — um dos que mais sofreu e resistiu à agressão japonesa — deveria ocupar posição de destaque. Diante da resistência, ameaçou renunciar, forçando uma votação que garantiu à China o segundo assento no tribunal.

Sua atuação também foi decisiva na fase de definição das sentenças. Em meio à divisão entre os juízes, especialmente quanto à aplicação da pena de morte, Mei recorreu à memória do Massacre de Nanjing para sustentar sua posição.

Ao descrever a brutalidade dos crimes cometidos, argumentou que os principais responsáveis não poderiam escapar da punição máxima. Sua intervenção ajudou a consolidar a maioria que levou à condenação de sete líderes japoneses à morte por enforcamento.

No tribunal, ele sintetizou sua visão em uma frase que atravessou décadas:

“Não sou um vingativo. Não quero colocar na conta dos japoneses de hoje a dívida de sangue do militarismo. Mas acredito que esquecer o sofrimento do passado pode trazer calamidades no futuro.”

Ao final do processo, Mei resumiu sua missão como um dever histórico diante de seu povo, destacando o compromisso com a justiça e a responsabilidade de não permitir que crimes de guerra fossem esquecidos.

Anos depois, lembraria o peso daquele trabalho ao descrever o cotidiano do julgamento como um esforço exaustivo, imerso em provas e documentos, onde cada detalhe poderia alterar o curso da história.

A advertência ecoa no presente. Para o governo chinês, o chamado “novo militarismo” japonês, embora apresentado como normalização, reproduz a lógica expansionista do passado e já se manifesta em diferentes esferas da sociedade.

O peso do passado no tabuleiro atual

O que está em jogo, portanto, não é apenas uma disputa geopolítica no presente, mas também a forma como a história é lembrada — ou esquecida.

O Japão de hoje não é o mesmo de 1945, mas os movimentos recentes mostram que o passado permanece como referência inevitável.

O alerta deixado nos Julgamentos de Tóquio segue atual: quando a memória se enfraquece, abre-se espaço para que antigas lógicas retornem sob novas formas.

* Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

Fonte: CMG

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