Resultado das Eleições no Brasil e as Relações Brasil-China

As eleições no Brasil nunca despertaram tanta atenção no mundo como neste ano de 2026. Foi um embate não só entre partidos políticos contrários em qualquer democracia, mas uma disputa de valores tão caros à modernidade e à solidariedade humana. No final, prevaleceu a racionalidade e a preservação dos interesses maiores de uma sociedade democrática e progressista.

A vitória do presidente Lula para mais um mandato, provavelmente o último de sua vida política, traz para o país um enorme desafio de governabilidade por ter de enfrentar um congresso hostil, atender às demandas colocadas pela população por melhorias efetivas em seu padrão de vida e devido à necessidade premente de aumentar a produtividade, o potencial de crescimento e a competividade externa. Nesse cenário desafiador, cabe considerar como tudo isso afetará as relações econômicas entre o Brasil e a China, seu maior parceiro comercial, cujas relações bilaterais estão atualmente no melhor momento da história. Os dois lados estabeleceram um relacionamento bilateral pragmático e sólido com base nos interesses nacionais.

Com a reeleição de Lula e a derrota da extrema-direita, o Brasil deverá continuar a exportar em larga escala produtos agrícolas e minerais, mas também precisa vender mais produtos manufaturados com maior valor agregado para a China. Além disso, o Brasil está necessitando urgentemente de atrair mais investimentos chineses para o desenvolvimento de novas tecnologias e da infraestrutura, em especial nos segmentos de linhas de transmissão elétrica e ferroviário.

Nessa nova gestão governamental de 2027-2030, a China poderia ampliar sua cooperação com o Brasil na transferência de know-how em planejamento setorial e no maior suporte para o financiamento de um Projeto Nacional de Desenvolvimento com foco na reindustrialização e no desenvolvimento da economia digital. Essa questão de falta de um efetivo e abrangente projeto nacional tem sido recorrentemente colocada como ponto fraco da administração atual de Lula.

A assistência e a cooperação da China na questão do desenvolvimento brasileiro poderia alavancar o seu crescimento econômico e beneficiar, por conseguinte, a própria China pelo aumento de suas exportações para um Brasil mais dinâmico e capaz de converter a complementaridade estática atual numa relação mais equilibrada e de reciprocidade do que ambas as partes têm mantido até agora. Espera-se, portanto, que a China e o Brasil saibam aproveitar o momento histórico que se desenrola para atingir um novo patamar de colaboração econômica e aprofundamento de seus laços já históricos de cooperação e de busca por um futuro comum compartilhado.

Por fim, cabe mencionar que o nordeste do Brasil surge nesta etapa como uma nova fronteira de oportunidades para as empresas chinesas no Brasil, em especial no estado do Ceará. A atratividade para o investimento estrangeiro advém não apenas de seu enorme potencial de geração de energias alternativas (solar e eólica), como também da melhoria na qualificação de sua mão de obra pela profusão de institutos federais e universidades. Derivam também do aprimoramento de sua infraestrutura de transportes (rodoviária e ferroviária) e de logística portuária (portos de Suape e Pecém), além da existência de Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) que oferecem vantagens fiscais para as empresas que se instalarem nessas zonas.

(*) Mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), ex-secretário de assuntos internacionais do governo do estado do Ceará e consultor internacional.

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