VI Conferência Internacional de Cooperação Portugal-China debate geopolítica, economia e defesa

A VI Conferência Internacional de Cooperação Portugal-China decorreu recentemente na Casa da Lusofonia, em Lisboa, com foco nas relações bilaterais entre os dois países. O evento contou com o apoio do primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, e de vários membros do Governo, bem como com a saudação do embaixador de Portugal na China, Manuel Cansado de Carvalho, e da embaixadora da China em Portugal, Yang Yiru.

No plano económico e político, o encontro ficou marcado pela presença da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), representada pelo vice-presidente, Vasco Mello, e da Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas, protagonizada pelo seu presidente, Jorge Pisco. A Confederação Portuguesa do Turismo também enviou uma mensagem de apoio.

A VI Conferência teve como principal parceiro a Universidade de Coimbra, representada pelo vice-reitor para as Relações Externas, Nuno Calvão da Silva, e pelo Instituto Confúcio, que congregou os seus homólogos dos Países de Língua Portuguesa (PLP) e da Europa, convocados pela diretora Cristina Zhou.

A crise geral da civilização industrial

 Na ocasião, a presidente da Associação Amigos da Nova Rota da Seda, professora Fernanda Ilhéu, analisou o 15.º Plano Quinquenal da China (2026–2030), destacando que o documento está agora focado na qualidade e sustentabilidade do crescimento, em linha com os objetivos da modernização socialista. Entre os principais eixos, a professora apontou a autossuficiência tecnológica na vanguarda da inteligência artificial, dos semicondutores e da biotecnologia, o fortalecimento da procura interna para estimular o consumo doméstico como motor principal da economia, bem como a aposta na segurança e na resiliência.

Fernanda Ilhéu sublinhou ainda que a China procura atingir essas metas por meio da cooperação internacional e ao serviço do seu povo, designadamente através da partilha das novas tecnologias, ao contrário dos Estados Unidos, que tentam impor ao mercado as suas tecnologias fechadas e os seus modelos políticos.

Crítica partilhada pelo Dr. Vasco Mello, da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), que, na sua qualidade de membro do Conselho Económico e Social Europeu, considerou que muitos dos responsáveis europeus não entendem que o regime político chinês é a escolha histórica de uma nação que, na Idade Moderna, se confrontou com políticas imperialistas e coloniais. Por essa razão, segundo Vasco Mello, a China valoriza a relação amigável e secular com Portugal e alcançou notáveis conquistas científicas e sociais que podem beneficiar o futuro incerto da Europa.

Neste contexto, a investigadora Anabela Santiago (CEI-Iscte / Universidade de Lisboa) analisou as redes de colaboração científica envolvendo Portugal e a China, sob a perspetiva da diplomacia científica, entre 1993 e 2026.

O economista e vice-reitor do Iscte – Universidade de Lisboa, Ricardo Pais Mamede, historiou as relações China-União Europeia e identificou as consequências trágicas, para a Europa, de uma sistemática política de sanções, restrições e desconfianças — em vez de uma política de cooperação orientada para os setores mais avançados, assente nas ciências e tecnologias sustentáveis, na inovação e na sustentabilidade. Criticou ainda o alheamento dos governos de alguns países europeus em relação ao planeamento das suas próprias economias, deixando ao mercado, que não controlam, um papel regulador atualmente manipulado pela desregulação global.

Os economistas e empreendedores presentes convergiram na necessidade de Portugal, sem voltar costas às suas alianças e acordos internacionais, construir o seu próprio caminho e aprofundar a cooperação no quadro da Lusofonia, da aliança Ibero-Americana e da procura da paz mundial. Mensagem reforçada pela comunicação do Dr. João Santos Pinto, diretor da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira(CCILB), e pelo Dr. Vítor Ramalho, presidente da Associação Cívica Participar+.

A RPCh e o lugar de Portugal no mundo, o país do meio

A crítica à deriva militarista e burocrática da União Europeia, esteve no centro da intervenção do professor catedrático de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Viriato Soromenho Marques, que concluiu: Portugal deve defender o princípio da paz e da cooperação compulsória em todos os centros de poder onde se encontra. Portugal deve abrir todas as suas históricas “janelas de oportunidade” e aumentar a sua resiliência pela multiplicação das relações de vantagem mútua com outros Estados. Face ao risco de uma nova guerra mundial, e à necessidade de uma nova ordem mundial, a China é um sujeito decisivo.

No quadro dos atuais conflitos mundiais, o general Pinto Ramalho, corroborado pelo major-general Carlos Branco e por todos os intervenientes, valorizou o papel da China e do presidente Xi Jinping, como pivots do caminho da contenção dos conflitos e da procura de soluções políticas negociadas, citando a sua posição face à “Armadilha de Tucídides”: Xi utilizou a referência histórica para alertar que ambos os países precisam de encontrar uma fórmula de coexistência pacífica, argumentando que uma guerra entre as duas superpotências seria destrutiva para o mundo inteiro.

O general Carlos Branco, analisou a evolução da política internacional dos EUA e o enfraquecimento da sua capacidade militar, desgastada pela sua interferência direta ou através dos seus proxies, em sucessivas guerras, da Palestina ao Irão, partindo das suas estratégias de defesa e segurança nacional.

Nas intervenções finais, António dos Santos Queirós e Y Ping Chow, em nome da Comissão Organizadora da VI Conferência, afirmaram a sua convicção de que é necessário escolher as estratégias e as alianças para criar um consenso mundial rumo a uma nova era, que ultrapasse este fim trágico da sociedade industrial, abrindo caminho para um futuro pacífico, democrático e sustentável para a humanidade, a que por ora, chamamos ecocivilização. Duvidando que a atual UE, que é, de facto, uma Europa de federalismo burocrático e financeiro, possa garantir esse futuro com a sua militarização  e o seu protecionismo. Mas talvez o faça uma Europa de federalismo democrático, debate político que é imperativo abrir.

Afirmando que é a construção do pilar representado pela cooperação multilateral dos PLP com a China, em aliança com o país irmão, a Espanha, que pode restituir a Portugal a sua plena soberania, se a UE se desagregar ou renascer como uma nova democracia.

Por:

António dos Santos Queirós, presidente da direção da CCDPCh e da União das  Associações de Cooperação e Amizade Portugal-China

Y Ping Chow, presidente da Assembleia Geral da CCDPCh e presidente da direção da Câmara de Comércio Luso-Chinesa das Pequenas e Médias Empresas

CRI Português

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