De Henfil em 1977 aos hospitais inteligentes de hoje, a lógica da saúde na China continua a mesma — e agora começa a chegar ao Brasil
Por Iara Vidal*
Henfil, nessa nossa prosa imaginária sobre a China que você viu em 1977 e a China onde vivo hoje, em 2026, já falamos do Exército Popular de Libertação, do transporte público e até dos robôs humanoides. Hoje quero te contar sobre o sistema de saúde.
Leia também: DIÁRIO DA CHINA – Uma prosa imaginária com Henfil na China antes da Coca-Cola

Em 1977, quando você visitou um hospital aqui em Beijing, encontrou algo que não era comum nem no Brasil, nem no Ocidente. O atendimento não ficava restrito aos hospitais.
Médicos eram enviados para o campo, para regiões periféricas e áreas de minorias, em equipes móveis. Atendiam de casa em casa, faziam prevenção, ensinavam higiene e formavam os chamados “médicos descalços”.
Esses profissionais aprendiam a lidar com doenças básicas, preparar medicamentos e usar plantas medicinais. Era um sistema pensado não só para tratar — mas para levar saúde onde ela não chegava.
Como você escreveu: “Não há um grupamento na China que não tenha seu médico-descalço.”
Um sistema pensado para chegar ao povo
O que você viu ali não era improviso. Era projeto. A saúde não começava no hospital.
Começava no território.
Havia uma lógica clara: prevenir antes de tratar, formar gente local, espalhar conhecimento básico e garantir presença onde o Estado não chegava por estruturas tradicionais.
Não era um sistema sofisticado — mas era profundamente organizado.
Quando o hospital vira rede
Henfil, quase 50 anos depois daquela sua visita, muita coisa mudou — mas o mais importante não mudou.
A China hoje tem um dos maiores sistemas de saúde do mundo. São dezenas de milhares de hospitais, milhões de profissionais e uma estrutura que se digitalizou numa velocidade impressionante.
Mas deixa eu te explicar isso do jeito mais simples.

A China digitaliza o que já existia
O objetivo agora é construir o que eles chamam de “hospital inteligente”. Não é só tecnologia espalhada — é uma lógica organizada.
Funciona mais ou menos assim: três coisas andando juntas — atendimento ao paciente, prática médica e gestão do hospital. Tudo conectado.
Quando você chega num hospital hoje, muita coisa já acontece antes mesmo de você falar com alguém.
Tem triagem digital, aviso de tempo de espera, pagamento pelo celular, navegação dentro do hospital, resultado de exame no aplicativo, consulta online, entrega de remédio em casa.
O hospital não começa mais na porta. Ele começa no celular.
E lá dentro, a coisa vai mais fundo. Os médicos trabalham com prontuários eletrônicos integrados, sem papel, com sistemas que ajudam na decisão clínica.
Os dados dos pacientes circulam dentro da rede — hospital, comunidade, histórico de saúde — tudo conectado.
Tem também robô em cirurgia, sistemas de apoio com inteligência artificial e ferramentas para diagnóstico e reabilitação.
Mas o ponto mais interessante não está só no atendimento.
Do território ao dado
Está na gestão.
O governo chinês criou um sistema para medir o nível de “inteligência” dos hospitais. É quase como uma escala: do hospital que ainda não usa tecnologia integrada até aquele que opera com dados compartilhados em tempo real.
E isso continua avançando.
Em documentos recentes, o próprio governo cobra mais integração entre hospitais — exames que podem ser usados em diferentes unidades, sistemas que conversam entre si, menos repetição, mais eficiência.
A telemedicina também virou prioridade, principalmente para conectar regiões distantes.
A ideia é simples: usar dados, inteligência artificial e plataformas digitais para fazer a saúde chegar onde antes não chegava.
Agora repara numa coisa, Henfil.
Em 1977, você viu médicos descalços andando de casa em casa. Hoje, essa presença acontece por rede, por dado, por tecnologia.
Mas a lógica é a mesma: levar saúde até onde o povo está. Só mudou a ferramenta.
E essa lógica começa a chegar ao Brasil
E tem uma coisa sensacional nessa nossa prosa, Henfil.
Aquela lógica que você viu lá atrás — de levar saúde para o povo — não ficou só na China. Ela começou a atravessar o mundo. E agora está chegando ao Brasil de um jeito bem concreto.
O governo Lula está aprofundando a parceria com a China para levar tecnologia para o nosso Sistema Único de Saúde (SUS). Mas não é só modernizar hospital, não. É algo maior.
A ideia é construir, em São Paulo, o primeiro hospital digital de referência do país, com mais de 800 leitos. Um hospital já pensado desde o início para funcionar com inteligência artificial, integração de dados e gestão digital.
Ou seja: não é pegar um hospital velho e adaptar. É construir já dentro dessa nova lógica.
E isso está sendo negociado com o banco dos BRICS — o mesmo banco criado para financiar projetos de desenvolvimento fora do eixo tradicional e que hoje é presidido por Dilma Rousseff.
Mas o mais interessante não é nem o prédio. É o que vem junto.
Essa parceria envolve produção de medicamentos, desenvolvimento de vacinas e transferência de tecnologia. Tem acordo para produção de insulina no Brasil, com participação de empresas chinesas e instituições como a Fiocruz.
E até a vacina da dengue do Butantan está sendo ampliada com colaboração chinesa.
Agora repara nisso, Henfil.
Lá em 1977, você viu um sistema que levava saúde com gente andando de casa em casa.
Hoje, essa mesma lógica começa a chegar ao Brasil — mas com outra ferramenta:
dados, inteligência artificial e integração de sistemas.
A pergunta já não é mais só como tratar. É como organizar a saúde em escala.
E, pela primeira vez em muito tempo, o Brasil está olhando para essa questão não sozinho — mas em parceria com quem já testou modelos próprios.

Tecnologia para cuidar das pessoas
Henfil, talvez o mais impressionante nessa história não seja a tecnologia. É a coerência.
Em 1977, você viu um sistema de saúde que chegava ao povo com gente descalça, andando de casa em casa, levando cuidado onde não havia estrutura.
Hoje, essa presença acontece por outro meio: dados, redes, inteligência artificial.
Mas o princípio é o mesmo.
A China não começou seu sistema de saúde com hospitais. Começou com território.
E agora mostra que tecnologia, quando faz sentido, não substitui essa lógica —
amplia.
No fim das contas, talvez a maior inovação não seja o robô cirúrgico, nem o prontuário digital.
É a ideia de que saúde não é só tratar doença. É organizar a vida.
* Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
