Hanfu nas ruas: por que a China tem se vestido de história

por Iara Vidal *

Juventude transforma tradição em estilo de vida — e isso diz muito sobre identidade, cultura e mercado.

Quem caminha hoje pelas ruas da China percebe algo curioso — e cada vez mais comum: jovens circulando com roupas que parecem ter saído de pinturas antigas, séries históricas ou romances clássicos. O vestuário tradicional chinês voltou com força, especialmente entre a juventude urbana.

Hanfu, saia mamian (literalmente “cara de cavalo”) e o chamado estilo “Neo-Chinês” deixaram de ser figurino de festas, encenações ou dramas históricos. Passaram a ocupar parques, universidades, encontros, sessões de fotos, eventos culturais e até ambientes de trabalho criativo. A tradição saiu do museu e foi para a rua.

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Essa tendência mistura passado e presente sem pedir licença. É identidade cultural vestida no corpo, com criatividade e autoconfiança — e ajuda a entender debates maiores sobre cultura, mercado e a chamada “modernização ao estilo chinês”.

O que é hanfu — e o que ele não é

Antes de tudo, vale uma pausa didática. Hanfu é o traje tradicional e histórico do povo han, o maior grupo étnico da China, responsável por mais de 90% da população. Sua história atravessa mais de três milênios, acompanhando dinastias, transformações sociais, estética e filosofia.

Mas há um equívoco comum: hanfu não é sinônimo de “roupa chinesa antiga”. A China é um país multiétnico, com 56 grupos oficialmente reconhecidos, cada um com vestimentas tradicionais próprias. O hanfu refere-se especificamente ao vestuário do povo han.

O qipao (ou cheongsam), por exemplo — frequentemente associado no Ocidente à “roupa chinesa” — é uma criação relativamente recente, derivada do vestuário das mulheres manchus no início do século 20. Bonito e icônico, mas não é hanfu. O mesmo vale para trajes tibetanos, uigures, mongóis ou dai, pertencentes a outras matrizes culturais.

Como reconhecer um hanfu

O hanfu não é uma peça única, mas um sistema de vestimenta guiado por princípios estéticos e simbólicos. Ele se caracteriza por cortes soltos, linhas retas e tecidos fluidos. Diferente do qipao justo e estruturado, o hanfu não marca o corpo: a elegância está no caimento e no movimento.

Um elemento central é o jiaoling, o cruzamento da gola da direita para a esquerda. Mais do que detalhe técnico, trata-se de um código cultural: essa direção indica a vestimenta correta do mundo dos vivos. O cruzamento inverso era reservado a rituais funerários, marcando a separação simbólica entre vida social e exceção ritual.

Outro traço marcante é a ausência de botões ou zíperes. O ajuste é feito por faixas e laços (dai), muitas vezes acompanhados de cintos decorativos (yaofeng). Vestir-se é um gesto consciente, quase ritual. Mangas amplas criam um efeito coreográfico no movimento do corpo, enquanto o uso de camadas expressa equilíbrio e proporção.

Reconhecer um hanfu é perceber essa combinação de fluidez, cruzamento, amarração, movimento e camadas — um modo de vestir que carrega história e identidade.

Dinastias, estilos e estética

O hanfu evoluiu ao longo de milênios. Hoje, o termo costuma se referir aos estilos desenvolvidos da Dinastia Shang ao final da Dinastia Ming, antes da consolidação do vestuário manchu no período Qing.

Cada período deixou marcas próprias. A Dinastia Han consolidou uma estética sóbria e austera. A Tang, cosmopolita e exuberante, é uma das mais populares no revival atual. A Song privilegiou elegância contida e refinamento intelectual. Já a Ming trouxe trajes mais estruturados e formais, frequentemente reproduzidos hoje.

Olhar esse percurso ajuda a entender por que o hanfu sempre foi mais do que “roupa antiga”: ele refletia valores, hierarquias e ideias de corpo e beleza de cada época.

Do desaparecimento ao renascimento

O hanfu deixou de ser vestimenta cotidiana a partir do século 17, com a ascensão da Dinastia Qing, de origem manchu. Os novos governantes impuseram códigos de vestimenta próprios, e o hanfu foi progressivamente desencorajado ou proibido em contextos oficiais.

Durante quase trezentos anos, permaneceu restrito a rituais, religião, teatro e cerimônias. O renascimento começou nos anos 2000, impulsionado principalmente por jovens, em fóruns online, universidades e comunidades criativas. Foi um movimento de baixo para cima, não uma política institucional.

Para muitos, o hanfu passou a simbolizar reconexão histórica, estética tradicional e afirmação cultural — com significados diversos, que vão do gosto visual à identidade.

Moda, mercado e estilo de vida

Hoje, o hanfu circula como roupa contemporânea. Ele aparece em parques históricos, eventos, sessões fotográficas e, em alguns casos, até no trabalho, especialmente em setores criativos. Trata-se menos de “voltar ao passado” e mais de reconstrução cultural em tempo real.

O mercado acompanhou esse movimento. Em 2025, o hanfu consolidou-se como um setor bilionário, integrado à economia cultural e ao consumo jovem. Dados da Global Market Statistics estimam que o mercado global tenha alcançado cerca de US$ 1,8 bilhão em 2025, com projeções de crescimento contínuo até 2035.

Na China, apenas no primeiro trimestre de 2025, as vendas ultrapassaram 3,14 bilhões de yuans. A produção se concentra em polos como o condado de Cao, na província de Shandong, responsável por quase metade da produção nacional e funcionando como um cluster industrial da vestimenta tradicional.

O consumo é fortemente impulsionado pelas redes sociais, por plataformas Taobao, JD.com e Xiaohongshu, além de fotografia temática, eventos culturais e turismo histórico. Ainda assim, o custo e a complexidade de vestir fazem com que parte do público opte por aluguel ou experiências pontuais.

Hanfu e a modernização ao estilo chinês

O retorno do hanfu não é apenas tendência de moda. Ele se conecta à forma como a China pensa seu próprio caminho de desenvolvimento. Desde 1949, modernizar o país nunca significou copiar modelos ocidentais. A ideia de socialismo com características chinesas buscou articular crescimento econômico, transformação social e continuidade histórica.

A partir de 2012, sob Xi Jinping, esse entendimento passou a ser organizado em torno da noção de “modernização ao estilo chinês”. Avançar em tecnologia e qualidade de vida sem romper com a história e a cultura próprias tornou-se um eixo central.

É nesse contexto que o hanfu ganha força. Ele não é fantasia histórica nem nostalgia. É tradição reinterpretada: roupas inspiradas em séculos de história, mas produzidas com design atual, circulação digital, e consumo jovem. Cultura, aqui, vira também economia.

O hanfu integra um movimento mais amplo conhecido como guochao, a “onda nacional”, que valoriza símbolos, marcas e narrativas chinesas. Mais do que projetar imagem para fora, fortalece orgulho cultural e senso de pertencimento interno.

Moda com características chinesas

O que se vê nas ruas da China hoje não é apenas o retorno de uma roupa antiga, mas a consolidação de uma linguagem estética. Hanfu, saia mamian e o estilo “Neo-Chinês” ocupam posições diferentes dentro do mesmo movimento: memória histórica, adaptação cotidiana e design contemporâneo.

Juntos, mostram que tradição, na China de hoje, não está presa ao passado. Ela circula, se adapta, vira mercado, consumo e identidade. Vestir-se deixa de ser apenas escolha estética e passa a ser também um gesto cultural — e, em certa medida, político.

Talvez seja isso que torne o fenômeno tão fascinante: a modernidade chinesa não se afirma apagando o passado, mas costurando-o ao presente. No corpo, no cotidiano e na rua, tradição e futuro seguem — literalmente — vestindo a mesma roupa.

* Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

 

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