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A geopolítica do imaginário: a importância de contar a própria história

Por Iara Vidal

Uma série japonesa e uma declaração infeliz de um dos jogadores de futebol mais famosos do mundo parecem acontecimentos sem relação. Mas as controvérsias envolvendo Vivant e Kylian Mbappé revelam uma dimensão importante das relações internacionais: a disputa pelo poder de construir narrativas, influenciar percepções e estabelecer quais valores orientam a circulação global de produtos culturais.

Na geopolítica, o poder não se manifesta apenas por meio da força militar, da capacidade econômica ou da influência diplomática. Também envolve a maneira como os países são representados, como suas histórias são contadas e como suas culturas são percebidas internacionalmente. É nesse campo que atua o chamado soft power, expressão utilizada para descrever a capacidade de exercer influência por meio da cultura, do prestígio e da atração.

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Filmes, séries, músicas, moda, esportes e outras manifestações culturais participam desse processo ao construir imagens de países, povos e acontecimentos históricos. Essas representações podem despertar admiração, reforçar estereótipos, influenciar percepções e até contribuir para legitimar determinadas visões políticas. Por isso, a cultura também se tornou um espaço de disputa nas relações internacionais.

O Pensamento de Xi Jinping sobre a Cultura: confiança cultural e voz própria no mundo

Na China contemporânea, a cultura é compreendida como uma dimensão estratégica do desenvolvimento nacional, da identidade coletiva e das relações internacionais. Essa concepção está presente no Pensamento de Xi Jinping sobre a Cultura, sistematizado oficialmente em outubro de 2023, que estabelece diretrizes para promover a prosperidade cultural, preservar a memória histórica, fortalecer a confiança cultural e ampliar a influência internacional da civilização chinesa.

Essa formulação foi construída ao longo de mais de uma década. Em 2013, Xi Jinping destacou os “dois fortalecimentos”: consolidar a posição do marxismo como filosofia orientadora na China e consolidar a base comum de pensamento de todo o Partido e do povo. Em 2018, apresentou os “nove princípios fundamentais” do trabalho de comunicação e ideologia, que incluem a liderança do Partido, a valorização da cultura nacional, a criação artística centrada no povo e a necessidade de contar bem as histórias da China e transmitir sua voz ao mundo.

Outro fundamento são as “duas integrações”, que orientam a adaptação dos princípios do marxismo à realidade concreta da China e sua integração à excelência da cultura tradicional chinesa. Essa concepção reconhece a importância de articular o desenvolvimento do socialismo com características chinesas às experiências históricas e às tradições culturais do país.

Em 2023, essas orientações foram aprofundadas nos “14 princípios da construção cultural” e nas “sete prioridades” do trabalho de comunicação, ideologia e cultura. Entre seus objetivos estão a preservação do patrimônio histórico, o desenvolvimento das indústrias culturais, o fortalecimento do soft power chinês e a promoção do intercâmbio e do aprendizado mútuo entre civilizações.

Um dos conceitos centrais desse pensamento é o de confiança cultural, que expressa a valorização da própria história, das tradições e do caminho de desenvolvimento escolhido pela sociedade chinesa. Mais do que preservar o passado, essa confiança também está relacionada à capacidade de apresentar ao mundo uma narrativa construída a partir das experiências, dos valores e das perspectivas da própria China.

A orientação de “contar bem as histórias da China” adquire, nesse contexto, um significado que ultrapassa a comunicação internacional. Trata-se também de fortalecer a capacidade do país de participar da construção das narrativas sobre sua história, seu presente e seu papel no mundo, promovendo o diálogo entre civilizações e uma compreensão internacional mais ampla da realidade chinesa.

É a partir dessa perspectiva que se pode compreender por que determinadas representações da China em produções culturais estrangeiras despertam debates que ultrapassam o campo artístico e alcançam a memória histórica, a identidade nacional e as relações diplomáticas.

Quando a ficção encontra a memória histórica

A segunda temporada da série japonesa Vivant provocou críticas na China ao apresentar agentes chineses torturando personagens japoneses. Os métodos de violência retratados reproduzem práticas utilizadas pelas tropas japonesas contra combatentes chineses durante a Segunda Guerra Mundial, invertendo simbolicamente os papéis históricos de agressor e vítima.

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A controvérsia ultrapassa os limites da ficção. O Massacre de Nanjing e os crimes da Unidade 731 fazem parte da memória histórica da agressão militar japonesa contra a China. Representações que evocam essas atrocidades podem adquirir significados políticos profundos, especialmente quando associadas à construção de imagens negativas de outros povos.

A emissora TBS afirmou que a produção é ficcional e não pretende difamar nenhum país. Ainda assim, o episódio levanta uma questão: a liberdade artística afasta a responsabilidade pelas representações históricas colocadas em circulação?

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A repercussão também teve consequências comerciais. A Sanrio, empresa responsável pela Hello Kitty, encerrou sua colaboração com Vivant depois das críticas chinesas, reconhecendo que conteúdos associados à produção contrariavam sua filosofia corporativa.

Mbappé e o peso do mercado chinês

Poucos dias depois, outra controvérsia evidenciou a relação entre cultura, identidade e economia. O jogador francês Kylian Mbappé provocou indignação na China ao chamar Mao Zedong, principal fundador da República Popular da China, de “ditador” enquanto comentava, em tom de brincadeira, uma montagem que associava sua imagem à do líder revolucionário chinês. A declaração provocou críticas e levou empresas chinesas a encerrar parcerias comerciais com o atleta, que posteriormente pediu desculpas. O Real Madrid também se manifestou publicamente.

O episódio ultrapassa a reputação de uma celebridade. Com aproximadamente 1,4 bilhão de habitantes, a China representa um mercado estratégico para marcas, clubes esportivos e empresas internacionais. Seus consumidores, entretanto, não podem ser vistos apenas como compradores de produtos estrangeiros. Possuem referências culturais, memórias históricas e capacidade de reagir quando consideram que esses valores foram desrespeitados.

Os dois episódios mostram que a influência cultural também encontra limites econômicos. O prestígio internacional de uma celebridade ou o sucesso de uma produção audiovisual não garantem aceitação irrestrita em sociedades com experiências históricas distintas. O respeito à história e à identidade cultural de um povo também constitui um elemento fundamental das relações internacionais.

Cultura, economia e disputa pelo poder

Durante décadas, grandes centros de produção cultural, especialmente Hollywood, exerceram enorme influência sobre as representações internacionais do mundo. A colaboração documentada entre o Pentágono e a indústria cinematográfica estadunidense demonstra como o entretenimento também pode participar da construção de imagens favoráveis ao poder militar.

Entretanto, o peso econômico crescente da China torna essa relação mais complexa. Seu mercado não representa apenas uma oportunidade comercial, mas também um espaço de contestação de narrativas produzidas no exterior.

Na perspectiva do Pensamento de Xi Jinping sobre a Cultura, essa dinâmica reforça a importância da confiança cultural e da capacidade de cada civilização de preservar sua identidade e contar sua própria história. Para a China, ampliar sua presença econômica e cultural no mundo significa também fortalecer sua voz nas disputas internacionais de narrativas, promovendo o respeito à diversidade das civilizações e o intercâmbio entre diferentes povos.

As controvérsias envolvendo Vivant e Mbappé mostram que a globalização cultural não elimina as diferenças históricas entre os povos. Pelo contrário, muitas vezes as torna mais visíveis, evidenciando a importância do respeito mútuo e do diálogo entre culturas.

Em um mundo cada vez mais interconectado, a capacidade de contar uma história não garante o controle sobre como ela será recebida. E a influência internacional não confere a ninguém autoridade exclusiva para definir como outras sociedades devem compreender sua própria história.

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

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