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“UE e China são parceiras de alto nível”, diz Christine Lagarde, em entrevista exclusiva ao CMG

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, concedeu uma entrevista exclusiva ao Grupo de Mídia da China (CMG, sigla em inglês) em Bangkok, capital da Tailândia, durante as Reuniões Anuais de 2026 do Fundo Monetário Internacional(FMI) e do Grupo Banco Mundial.

CMG: Qual a sua opinião sobre a perspectiva econômica global, tema central das Reuniões Anuais do FMI e do Grupo Banco Mundial deste ano? Quais são as suas maiores preocupações?

Christine Lagarde: Em relação à perspectiva econômica global, o que mais me surpreendeu foi a resiliência demonstrada pela economia mundial. Há um ou dois anos, prevíamos que a situação continuaria a se deteriorar e que o crescimento econômico diminuiria — seja em economias desenvolvidas, emergentes ou de baixa renda, todas enfrentaram múltiplos choques nos últimos seis anos. Mas a realidade surpreendeu a todos. A economia global demonstrou uma resiliência muito superior às expectativas. Este é o lado positivo. Mas, infelizmente, os impactos negativos também me surpreenderam. Situações geopolíticas estão minando políticas econômicas que já estavam em andamento. Na minha área de responsabilidade, após a pandemia de Covid-19 e com o alívio gradual da crise energética desencadeada pelo conflito entre Rússia e Ucrânia, a taxa de inflação da Europa já havia retornado à meta de médio prazo de 2%. Infelizmente, esse processo foi interrompido. A evolução da situação geopolítica e as ações das pessoas estão dificultando o desenvolvimento econômico que poderia ter sido alcançado. É isso que lamento profundamente.

CMG: A senhora apelou por um “diálogo entre adultos” entre a China e a UE. Na semana passada, foi realizada, em Beijing, a segunda reunião ordinária do Mecanismo de Consulta sobre Comércio e Investimento China-UE. Os dois lados chegaram a 16 pontos de consenso em 48 horas sobre questões como controles de exportação, reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC) e comércio e investimento. A senhora considera isso um passo em direção à forma de diálogo que defendeu?

Lagarde: Certo. Acredito que o diálogo que você mencionou e o consenso alcançado por ambos os lados são resultado de intensas consultas. Expresso meu respeito ao ministro do Comércio da China, Wang Wentao, e ao comissário Europeu para o Comércio e a Segurança Econômica, Maroš Šefčovič. Acredito que os dois funcionários e suas equipes realizaram um trabalho excepcional e alcançaram resultados. Portanto, discordo daqueles que afirmam que “o diálogo com a China é impossível”. O diálogo é possível. Acredito que o progresso alcançado nesta consulta é muito positivo. Embora muita atenção tenha sido dada aos veículos híbridos e aos compromissos relacionados, penso que o escopo das discussões vai muito além disso, e espero um diálogo mais aprofundado no futuro.

CMG: Por que a senhora acredita que o diálogo entre as duas partes é possível? Em sua opinião, o que significa para o resto do mundo uma relação estável e saudável entre a China e a UE?

Lagarde: É importante entender que tanto a China quanto a UE são pragmáticas. A China considera o cenário global ao avaliar suas capacidades de exportação e seu potencial de expansão. Atualmente, a UE é um mercado altamente atrativo. Só a zona do euro tem 360 milhões de habitantes, e temos uma grande classe média com forte poder aquisitivo. Ao mesmo tempo, temos um alto nível de circulação de mercadorias e abertura comercial, o que é raro entre muitas economias desenvolvidas. Portanto, a UE certamente atrai a atenção da China. Da mesma forma, muitas empresas europeias estabeleceram operações em território chinês, criando pontos de venda, subsidiárias e centros de produção. Isso demonstra que existem interesses comuns entre os dois lados. A UE e a China são parceiras de alto nível no comércio de bens e serviços. Portanto, sim, devemos cooperar.

CMG: A senhora visitou a China muitas vezes, encontrou-se com líderes chineses e testemunhou o desenvolvimento econômico da China. Qual aspecto do desenvolvimento e da transformação do país mais a impressionou?

Lagarde: A primeira coisa que me vem à mente é o sucesso da China no combate à pobreza. A China mobilizou toda a nação para promover a redução da pobreza, tirando centenas de milhões de chineses da pobreza. O segundo ponto, que testemunhei pessoalmente, é a resposta eficaz à ameaça das mudanças climáticas. A China atribui grande importância à qualidade do ar e da água, fortalece o tratamento e a reciclagem de resíduos e alcançou resultados notáveis. Todos os problemas foram resolvidos? A China parou de emitir dióxido de carbono? Claro que não. Mas, entre os países com uma base de emissões tão grande e uma população tão numerosa, poucos alcançaram o que a China alcançou.

CMG: Olhando para trás, para o processo de reforma, abertura e modernização da China, como a senhora vê a contribuição do país para o crescimento econômico, o desenvolvimento, o comércio e a prosperidade do mundo?

Lagarde: Acredito que a China aproveitou plenamente as vantagens de seu sistema político e sua capacidade organizacional, integrando-se ativamente ao comércio global. Em grande medida, eu diria que a China erradicou a pobreza ou, pelo menos, reduziu significativamente o número de pessoas pobres do país. Além disso, incentivou o empreendedorismo e promoveu reformas. A missão foi cumprida? Ainda não. Mencionei anteriormente que ainda há espaço para a China elevar a capacidade de consumo, e isso é, de fato, verdade. Sei que o presidente Xi Jinping e os departamentos chineses relevantes estão trabalhando arduamente para orientar os cidadãos a expandir o consumo. Esse processo não será fácil e requer uma abordagem gradual e sólida.

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