
Prestes a completar um século de existência, o Exército Popular de Libertação (EPL) é síntese do nível de desenvolvimento acelerado que a China alcançou nas últimas décadas. Se em 1927, ano de sua fundação, o exército liderado pelo Partido Comunista da China ainda era uma força orientada a uma guerra de guerrilhas cujo desenvolvimento teve no “cerco das cidades pelo campo” uma vitoriosa doutrina militar para a revolução, no início da década de 1950, o EPL, após vencer a guerra revolucionária nacional, já era competente a auxiliar o povo da Repúlica Popular Democrática da Coreia a resistir aos invasores estadunidenses. Expandiu-se enquanto força aérea e marinha a ponto de ter se transformado em uma potência militar nos céus e nos mares. E hoje, o EPL tornou-se uma força armada com a confiança e a capacidade de salvaguardar a soberania nacional e a integridade territorial, bem como de prestar contribuições ainda maiores para a paz e o desenvolvimento mundiais.
Em vários momentos, o presidente chinês, Xi Jinping, também presidente da Comissão Militar Central, tem enfatizado que o mundo tem passado por mudanças jamais vistas em um século juntamente com uma revolução técnico-científica que está desafiando todos os terrenos da vida social, inclusive no campo militar e, principalmente, em sua governança como chave para melhor direcionar a modernização do Exército. Segundo Xi:
“Tendo como fundo as mudanças profundas e aceleradas não vistas em um século pelas quais o mundo está passando e uma nova rodada da revolução científico-tecnológica e militar que está ganhando um forte impulso, o desenvolvimento do nosso exército enfrenta um momento de suma importância para concretizar a meta do centenário do EPL. Devemos compreender plenamente a importância do fortalecimento da governança dos assuntos militares em todos os aspectos, reforçar o senso de missão e responsabilidade, levar adiante o espírito de reforma e inovação e redobrar esforços para a governança dos assuntos militares a fim de alcançar, por meio de um maior fortalecimento do trabalho nessa área, novos avanços na causa do fortalecimento do exército.”
O problema da governança é de ordem estritamente política. O EPL não é uma organização militar convencional que se rege pelas mesmas regras de funcionamento dos países capitalistas. O EPL está subordinado ao Partido Comunista da China (PCCh). Trata-se de uma força armada de caráter político e com fundo ideológico muito claro. Isso implica que a própria sobrevivência do sistema socialista na China depende muito da liderança absoluta do Partido sobre o exército. E mais do que isso: sua saúde ideológica é tão fundamental quanto seu nível de desenvolvimento técnico e militar.
A governança em tempos de grandes despesas militares é sinônimo de combate efetiva à corrupção na sociedade chinesa, no PCCh e também no EPL:
“(…) eliminar os terrenos férteis e as condições para a corrupção. Continuaremos a manter uma postura dura contra a corrupção e trataremos tanto os sintomas como as causas, aplicando uma abordagem sistemática. Reforçaremos a responsabilidade principal dos comitês do Partido, a supervisão das comissões de inspeção disciplinar e o escrutínio por parte dos departamentos setoriais, a fim de expandir a amplitude e a profundidade do combate à corrupção. Devemos aperfeiçoar os mecanismos de alocação de poder e de freio de seu exercício, desenvolver novas ferramentas para combater as novas formas de corrupção e práticas veladas, além de fortalecer a supervisão integral do desempenho das funções e do exercício do poder pelos quadros de alto escalão.”
No fundamental, as exigências de nossa época histórica implicam a elevação da capacidade de domínio político do PCCh sobre o EPL. O cenário é de alta complexidade externa, com a tendência de algumas nações se colocarem, por meio da violência, acima dos desejos gerais dos povos. Por outro lado, a governança e a política vão ganhando centralidade na mesma proporção em que a China é protagonista da atual revolução científica e tecnológica em curso no mundo.
Além disso, o próprio EPL tem sido um campo de testes de novas capacidades militares sob o apanágio de novas e novíssimas tecnologias. É notável o fato de a China estar presenciando avanços militares sem precedentes e estar concentrada no desenvolvimento naval, na pesquisa de mísseis hipersônicos e na integração de inteligência artificial e robótica militar. É bom salientar que a China consolidou-se como a maior construtora naval global em larga escala e já é capaz de construir mísseis avançados da linha Dong Feng, capazes de burlar defesas antimísseis tradicionais.
Ou seja, trata-se de uma força armada em plena construção e constante desenvolvimento à luz dos progressos gigantescos em matéria de ciência, tecnologia e inovação. Certamente a liderança de Xi Jinping e a inauguração da nova era do socialismo com características chinesas foram e são impulsos fundamentais. Porém, a governança e liderança absoluta do PCCh sobre o EPL continuam cada vez mais centrais para o futuro da China e do socialismo.
por Elias Jabbour, professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
