
O debate internacional sobre inteligência artificial (IA) entrou, em 2026, em uma nova fase. A discussão já não se concentra apenas no potencial da nova tecnologia, mas principalmente em como governá-la, regulá-la e utilizá-la para aumentar a produtividade e potencializar a cooperação para o desenvolvimento de todos os países do mundo. Há divergências entre o Ocidente e a China quanto aos objetivos estratégicos, ao papel do Estado, à governança, ao tratamento dos dados e à forma de equilibrar inovação, segurança e direitos individuais.
A divergência entre as abordagens ocidental e chinesa não decorre de uma avaliação diferente sobre a importância da IA — ambas a consideram uma tecnologia decisiva para o futuro. A principal diferença está no modelo de governança. Em linhas gerais, o Ocidente baseado no liberalismo tende a privilegiar a inovação liderada pelos mercados, acompanhada de mecanismos de proteção aos direitos individuais e de regulação de riscos. A China, por sua vez, adota uma estratégia de coordenação estatal em que a IA é tratada como um ativo estratégico para impulsionar o desenvolvimento econômico, a modernização industrial, a prestação de serviços públicos e a segurança nacional. Na prática, os dois modelos vêm apresentando sinais de convergência: países ocidentais passaram a ampliar investimentos públicos e políticas industriais em IA, enquanto a China busca combinar sua coordenação governamental com maior dinamismo empresarial e estímulos à inovação privada.
Na abertura da Conferência Mundial de IA 2026 e da Reunião de Alto Nível sobre Governança Global da IA em Xangai em 17 de julho passado, a China, através do presidente Xi Jinping, fez aos demais participantes quatro observações importantes sobre o desenvolvimento e a governança da IA. Primeiro, abordou a necessidade de aderir ao princípio de abertura e cooperação mutuamente benéfica, ao mesmo tempo em que se estimula o desenvolvimento impulsionado pela inovação. Para tal o código aberto, a colaboração e o compartilhamento para facilitar a inovação tecnológica, o desenvolvimento industrial e a aplicação seriam essenciais para o avanço da IA.
O segundo ponto referiu-se à conscientização sobre riscos e a garantia de que a IA seja segura e controlável. Há necessidade de assegurar que a IA esteja sempre sob controle humano e evitar a extensão excessiva do conceito de segurança nacional no campo da IA ou de colocar a segurança de um país acima de outros.
Em terceiro lugar, o presidente chinês destacou ser indispensável o incentivo à inclusão e promoção do aprendizado mútuo entre as nações, uma vez que o desenvolvimento da IA e sua aplicação não devem minar a diversidade das civilizações mundiais nem a singularidade das culturas de diferentes países.
Por último, o presidente chinês em seu discurso defendeu a solidariedade e o aprimoramento da governança global, cabendo à Organização das Nações Unidas (ONU) um papel relevante nessa mediação, de modo a atingir mais alinhamento e coordenação sobre as estratégias de desenvolvimento, as regras de governança e os padrões técnicos da IA. Nesse aspecto, a cooperação internacional teria a nobre função de ajudar os países do Sul Global com a capacitação para reduzir a brecha digital e a de IA, promover o desenvolvimento sustentável e evitar a criação de novas injustiças a partir do uso da IA. Para tal, a China vai oferecer cinco mil vagas em programas de formação e seminários sobre IA a países em desenvolvimento, além de construir centros internacionais de cooperação em aplicações de IA com a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático), a Liga Árabe, a União Africana, a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), a OCS (Organização de Cooperação de Shanghai) e o BRICS.
A posição chinesa na matéria é digna de nota, uma vez que o debate mundial sobre IA deixou de ser predominantemente tecnológico para se tornar uma questão de estratégia econômica, competitividade industrial e política pública. Em outras palavras, a nova tecnologia passou a ser uma ferramenta essencial para o crescimento no século XXI, comparável ao papel que a eletricidade, as ferrovias e a própria internet desempenharam em momentos anteriores da história econômica.
No contexto acima descrito, os países que conseguirem combinar capacidade computacional, energia, talentos, dados de qualidade, inovação e um ambiente regulatório equilibrado tendem a capturar os maiores ganhos de produtividade e ampliar o seu potencial de crescimento e bem-estar. Portanto, para as economias emergentes e em desenvolvimento a cooperação internacional será essencial para transformar a IA em um instrumento de aumento da sua competitividade e modernização dos serviços públicos, contribuindo para absorver e dominar adequadamente as novas tecnologias digitais e colocá-las a favor de seu genuíno desenvolvimento e soberania.
Por José Nelson Bessa Maia, ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Estado Brasileiro do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Atualmente é consultor internacional.
