A semana de moda de Beijing traduz, em tecido e forma, o projeto de desenvolvimento de alta qualidade e as “mudanças nunca vistas em um século”
Por Iara Vidal*
A moda expressa o espírito do tempo. E, na China de hoje, esse tempo é marcado por “mudanças nunca vistas em um século”, como costuma afirmar o presidente Xi Jinping, e pela busca por um desenvolvimento de alta qualidade, com os olhos voltados à vanguarda tecnológica. Esse clima atravessa a política do país — inclusive o recém-divulgado 15º Plano Quinquenal — e também se manifesta na China Fashion Week (CFW), realizada entre 20 e 28 de março, em Beijing.
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Na edição Primavera 2026 da semana de moda da capital chinesa, três movimentos ganham força — e, mais do que tendência, passam a operar como estrutura. A tecnologia digital deixa de ser efeito e se consolida como base do processo, indo da criação com inteligência artificial (IA) aos desfiles híbridos e experiências em realidade aumentada.
Ao mesmo tempo, a moda local e o patrimônio cultural ganham escala e centralidade: técnicas tradicionais deixam de ser detalhe e passam a organizar coleções inteiras, conectando a produção regional a uma linguagem contemporânea e global.
A sustentabilidade segue esse mesmo deslocamento. Sai do discurso e entra na prática, costurando toda a cadeia — de materiais reciclados e tingimentos naturais a soluções de baixo carbono. A lógica circular — reutilizar, recriar, prolongar — começa a orientar a produção. Menos promessa, mais operação. No fundo, o que se vê é uma mudança de lógica: menos efeito, mais estrutura.

Moda como linguagem do tempo
Durante a cobertura do evento, entrevistei o designer Zou You, fundador da marca ZOUYOU, doutor pela Academia Central de Belas Artes e vice-reitor da Beijing Institute of Fashion Technology (BIFT).
Sua trajetória combina pesquisa, ensino e criação — e também passa por projetos ligados a momentos simbólicos do país, como as comemorações dos 70 anos da República Popular da China (RPC), o centenário do Partido Comunista da China (PCCh) e o desenvolvimento de uniformes para os Jogos Olímpicos de Inverno de Beijing 2022.
Mais do que estética, seu trabalho dialoga com a forma como a China constrói sua imagem e seus valores dentro do socialismo com características chinesas. Com um estilo contido e direto, ele busca criar roupas que funcionem no cotidiano, mas que também carreguem significado.

Nesta edição da CFW, Zou You apresentou a coleção “Peak/Epoch”, que propõe uma reflexão sobre a moda como linguagem do tempo. Para ele, a moda não é linear: ela retorna, se reorganiza e se transforma, mas parte de algo que permanece — a busca humana por sentido e beleza em cada época.
“Eu vejo a moda como algo cíclico. Ela se manifesta de formas diferentes em cada época, mas, no fundo, muitos aspectos da natureza humana nunca mudam. Por exemplo, a busca pelo bem e pelo belo — isso permanece”, explicou.
Ao aproximar literatos e intelectuais chineses e ocidentais do início do século XX, o desfile construiu uma ponte entre tempos, espaços e sensibilidades distintas. Ali, eu comecei a enxergar algo maior: a ideia de “comunidade de futuro compartilhado” — um conceito-chave do pensamento chinês contemporâneo — ganhando forma, quase sem fazer barulho, em tecido e em corpos.

Um encontro imaginado
Imaginei um encontro entre Lu Xun (1881–1936), escritor, ensaísta e crítico chinês, considerado um dos fundadores da literatura moderna chinesa, e Walter Gropius (1883–1969), arquiteto e designer alemão, fundador da Bauhaus, escola que redefiniu as bases do design e da arquitetura moderna no século XX.
De mundos distintos, ambos enfrentaram a modernidade como crise e tarefa: um pela escrita, outro pelo design. Juntos, me ajudaram a entender o gesto de Zou You — não revisitar o passado como figurino, mas aproximar sensibilidades para dar forma a um mundo em transformação.

Quando o espaço também fala
O desfile ocorreu no 97罐, antigo gasômetro do parque 798·751, uma arena circular de escala monumental. Ali, a moda dialogava com a memória industrial do espaço. Entre luz, movimento e performance, a roupa deixou de ser apenas imagem e passou a atuar como presença — atravessando corpo, espaço e história.
Camadas de tempo
Na passarela, essa ideia de tempo aparece de forma concreta. As roupas surgem em camadas, com volumes amplos e tecidos fluidos, muitas vezes com bordas cruas e um acabamento propositalmente menos “perfeito”, que remete ao uso e à passagem do tempo.
A paleta é contida: predominam cinza e azul profundo, com toques de vinho e apenas pequenas entradas de branco e tons terrosos. O preto, menos dominante do que se poderia supor, abre espaço para que o olhar se concentre na forma e na textura.
Zou levou para a passarela uma visão de aldeia global que se materializou no casting. Modelos de diferentes origens e traços reforçaram, na prática, essa conversa entre tempos, culturas e geografias.
“Eu quis trazer a forma como entendemos a beleza hoje, assim como conceitos contemporâneos, como a ideia de uma ‘aldeia global’ e de sustentabilidade, e colocá-los em diálogo com artistas, designers e intelectuais chineses do início do século XX. Criar, assim, uma conversa que atravessa o tempo”, descreveu.

Sustentabilidade como linguagem
Embora o desfile não traga um discurso explícito sobre sustentabilidade, ela aparece de forma mais silenciosa, no próprio fazer da roupa. A costura acolchoada, as bordas cruas, a sobreposição de camadas e a valorização da textura e do trabalho manual deslocam o foco do acabamento perfeito para o processo e a materialidade.
Aqui, sustentabilidade não surge como slogan, mas como linguagem — uma lógica que valoriza continuidade, duração e uso, mais do que novidade ou ruptura.
Tecnologia, menos exibida
Para Zou You, a relação entre tecnologia e moda não é uma ruptura, mas parte de um processo histórico contínuo. Desde que a produção mecânica substituiu o artesanato tradicional, o modo de produção da moda já vem se transformando — e isso, segundo ele, é inevitável.
“Os seres humanos estão sempre buscando o novo, o diferente, expandindo continuamente novas possibilidades”, afirma.
Nesse contexto, o design precisa ir além da função. Ao compreender as necessidades do presente, deve oferecer não apenas utilidade, mas também uma forma de satisfação simbólica e sensível. “Isso é fundamental”, resume.
Se a tecnologia não aparecia de forma explícita no desfile, eu tive a sensação de que ela estava ali, deslocada para os detalhes. Foi nos calçados que isso mais me chamou atenção. Havia algo naquele desenho — vazado, quase como uma estrutura de nervuras, com aspecto moldado — que me remetia a uma estética mais técnica, quase industrial.
Não encontrei confirmação de que se tratava de impressão 3D ou de algum processo específico de fabricação digital. Ainda assim, como observadora, fiquei com a impressão de que a tecnologia, ali, não era exibida — ela estava insinuada.

Moda como tradução de um tempo
No fim, o que se vê na passarela não é apenas uma coleção, mas a tradução de um tempo histórico. Em um país que fala em “mudanças nunca vistas em um século” e orienta seu projeto pelo desenvolvimento de alta qualidade, a moda deixa de ser superfície e passa a operar como linguagem.
Foi aí que eu mesma comecei a dar sentido a isso. Ao imaginar esse encontro entre Lu Xun e Walter Gropius, não foi só um exercício de conectar tradições diferentes — foi uma tentativa de entender algo mais profundo: dar forma — estética, material e simbólica — a um mundo em transformação.
Na China de hoje, essa transformação não está apenas nos planos, nos discursos ou na tecnologia. Ela também se costura — camada por camada — no tecido do cotidiano.
* Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

