De Shenzhen a Pudong, e agora Xiong’an: como a China constrói, etapa por etapa, seu modelo de desenvolvimento
Por Iara Vidal

Para escrever sobre Xiong’an, meu primeiro impulso foi pesquisar o que a cidade significa para a China. Não demorou para perceber que ela não pode ser entendida isoladamente: faz parte de uma sequência histórica de projetos que sintetizam diferentes fases do desenvolvimento chinês.
Se Shenzhen simbolizou a Reforma e Abertura a partir de 1978 — como vitrine da industrialização acelerada e da inserção no mercado global —, e Pudong, em Shanghai, marcou uma etapa de financeirização e integração às cadeias globais, Xiong’an surge como o emblema de um novo momento.
Mais do que expandir, trata-se agora de qualificar. Xiong’an representa a ambição de uma economia de alta qualidade: mais tecnológica, mais sustentável e planejada desde a origem para responder aos desafios do século XXI.
Ciente disso, me organizei para conhecer a cidade que muitos dizem lembrar a minha Brasília. Foi a primeira viagem de trem nessa nova fase da minha vida na China.
Primeira parada: uma cidade que nasce
Em cerca de 50 minutos, o trem chegou à estação de Xiong’an. Um espaço imenso, ainda pouco movimentado, que mais parece uma catedral. Os arcos do teto me remeteram às linhas modernistas de Oscar Niemeyer, especialmente à fluidez dos espaços de Brasília — como os salões do Itamaraty e as rampas do Congresso Nacional — uma arquitetura que, assim como Xiong’an, nasce como projeto de futuro antes mesmo de ser plenamente habitada.
Segui de táxi até um pequeno museu sobre o projeto urbano. No caminho, a paisagem plana — tão plana quanto Brasília — revelava um vasto canteiro de obras. Betoneiras cruzavam avenidas largas, serpenteando entre um mar de guindastes que dominava o horizonte, enquanto as vias já traçavam, com precisão, o desenho da cidade que ainda está por vir.
Observei quadras organizadas, conjuntos residenciais padronizados e uma lógica clara: aqui, o desenho antecede a vida.
Cidade-projeto, projeto de Estado
Xiong’an não nasce do nada. A região, na província de Hebei, era formada por áreas rurais e cidades menores. Em 1º de abril de 2017, foi oficialmente criada como uma “nova área” estratégica, ligada à visão de desenvolvimento de Xi Jinping.
O projeto integra a estratégia Jing-Jin-Ji, que conecta Beijing, Tianjin e Hebei, redistribuindo funções e reduzindo a pressão sobre a capital. A ideia é transferir atividades não essenciais e criar novas centralidades planejadas.
Nesse contexto, Xiong’an é peça-chave: uma cidade construída praticamente do zero para receber funções administrativas, tecnológicas e de inovação.
Se Shenzhen abriu a China ao mundo e Pudong consolidou sua inserção global, Xiong’an representa um novo salto: o da qualidade, do planejamento e da tecnologia como eixo de desenvolvimento.
A cidade antes da cidade
O centro expositivo, uma espécie de mini museu, traduz o apelo contemporâneo da cidade.
A exposição é imersiva e culmina em uma grande maquete iluminada, onde o projeto se revela. Xiong’an é organizada por eixos: um administrativo, outro voltado à inovação tecnológica e áreas residenciais integradas, com serviços e espaços verdes.
A água do lago Baiyangdian aparece incorporada ao desenho urbano como infraestrutura ecológica. Tudo parece antecipado: transporte, expansão e circulação já definidos, como se a cidade tivesse sido pensada em movimento.
Em um espaço interativo, pedalei uma bicicleta enquanto uma simulação projetava a cidade em funcionamento — uma forma simples de mostrar o urbanismo multimodal, que integra bicicleta, transporte público e deslocamentos a pé desde o início.
Ali, Xiong’an deixa de ser obra e se apresenta como ideia — uma cidade planejada para representar um novo estágio do desenvolvimento chinês.
Baiyangdian: um lago que é muitos
Segui para o lago Baiyangdian, o maior sistema de áreas úmidas do norte da China. Mais do que paisagem, é um espaço onde natureza, história e política se encontram.
O lago é formado por mais de 140 corpos d’água interligados, cercados por juncos e pequenas ilhas. Comunidades vivem ali há séculos, sustentadas pela pesca e pela colheita de lótus.
Durante a invasão japonesa, a região foi palco de resistência. Os “Heróis dos Juncos” usavam o labirinto natural para emboscar tropas — uma guerra invisível que virou símbolo na literatura chinesa.
Hoje, o lago está no centro do projeto de Xiong’an. O desafio é evidente: equilibrar preservação ambiental e urbanização de alta tecnologia.
Um karaokê inesperado
Durante o passeio pela orla desse lugar — que é, de fato, um personagem da história chinesa —, ouvi uma música alta e pensei que era um bar com música ao vivo, tão comum no Brasil. Seguimos o som. Era um pequeno grupo de idosos cantando no karaokê.
Fui laçada, fisgada e, acredite, tive que cantar. Um vexame com características chinesas que me rendeu ótimas gargalhadas. Cantei Evidências, um tipo de hino para brasileiros ligeiramente alterados quando têm um microfone nas mãos, e tentei entoar Madalena.
Volta, memória e futuro
Depois da minha apresentação nada memorável, seguimos observando famílias, adolescentes e barraquinhas de comida. Era ali que a cidade começava a ganhar vida.
Na volta, o contraste ficou evidente: uma paisagem rural convivendo com prédios modernos. A estação, ampla e ainda vazia, parecia antecipar o que virá.
Senti uma saudade imensa dos meus pais. Pensei em como foi para eles chegarem a Brasília ainda em construção, nos anos 1950 e 60, com a esperança de um futuro.
Observei aquelas famílias e tentei reconhecer esse mesmo sentimento.
Tenho a impressão de que ali está nascendo um lugar que ainda vai ser muito bonito — como a minha cidade.
* Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
