Como um cordão de algodão no figurino de Bad Bunny e a plantação de cana-de-açúnar do cenário expõe a história colonial da América Latina — e ilumina a disputa contemporânea por terra, alimentos e poder
Por Iara Vidal*
Nem todo espetáculo é apenas entretenimento. Às vezes, ele revela disputas profundas do nosso tempo. O show de Bad Bunny no Super Bowl parecia apenas mais um grande momento da cultura pop dos Estados Unidos. Mas ali estavam em jogo idioma, território, memória colonial — e, do outro lado do planeta, a China também assistia e reagia. O palco era estadunidense. O impacto, global.
Um intervalo que atravessou o mundo
No dia 8 de fevereiro, os olhos do mundo se voltaram para o Super Bowl LX, em Santa Clara, na Califórnia. Não era só sobre futebol americano. Era sobre o show do intervalo. Pela primeira vez, um artista latino solo comandou o halftime show. Benito Antonio Martínez Ocasio, o Bad Bunny, ocupou o palco mais assistido da música mundial cantando quase inteiramente em espanhol.
Foram 13 minutos. Pouco no relógio. Gigante no significado. Um espetáculo tradicionalmente dominado pela indústria cultural anglófona abriu espaço para o Caribe e a América Latina falarem sua própria língua no centro do império midiático. Em tempos do ICE de Donald Trump, isso não é pouca coisa.
A audiência global ficou entre 128 e 135 milhões de pessoas. Durante dias, minha linha do tempo nas redes sociais foi inundada por análises e debates.
Entre dois palcos
Alguns amigos me provocaram: “Cadê seu texto sobre o show? Isso é a sua cara.” E talvez seja mesmo. Moda e política se encontraram ali de forma quase didática. Mas, naquele momento, minha atenção estava voltada para outro palco: os prelúdios e as celebrações que antecedem a Gala do Festival da Primavera do China Media Group (CMG) — eventos realizados em vários países, uma espécie de aquecimento global para o equivalente chinês ao espetáculo da NFL (National Football League, a Liga Nacional de Futebol Americano).
Trata-se de um dos momentos mais importantes da empresa em que trabalho. Vou falar mais sobre isso em outro texto, talvez na minha prosa com Henfil. Por ora, digo apenas que foi uma das experiências televisivas mais grandiosas que já presenciei.
Volto a Bad Bunny. Ele esteve no Brasil para dar início à sua turnê mundial “Debí Tirar Más Fotos” e fez dois shows históricos em São Paulo (SP), nos dias 20 e 21 de fevereiro. Vale muito ler o registro feito pela jornalista Gabriela Peres para o veículo brasileiro Brasil De Fato.
Quando o show chega à China
Até aqui na China o show do intervalo do Super Bowl repercutiu. Internautas comentaram figurinos, gestos e símbolos. O álbum Debí Tirar Más Fotos alcançou o primeiro lugar na Apple Music China — feito raro para um trabalho inteiramente em espanhol.
Um vídeo viralizou: um cantor em Chongqing liderando um grupo de aposentados chineses cantando “Debí Tirar Más Fotos” em coro. A imagem fala por si. O intervalo mais estadunidense de todos virou, mais uma vez, um fenômeno global.
Cana, algodão e poder
Mais do que a música ou o gesto político de cantar em espanhol, dois elementos visuais me prenderam na apresentação: os canaviais no cenário e o cordão de algodão na cintura de Bad Bunny.
No look branco customizado da rede espanhola de fast fashion Zara, esse detalhe vai além do enfeite. A amarração remete à estética jíbara de Porto Rico, ligada ao vestuário do campo, e também dialoga com roupas de trabalho usadas nas Américas coloniais, sobretudo por pessoas negras escravizadas, com cordões e tiras de tecido para ajustar peças ao corpo.
Quando cana e algodão aparecem no palco do Super Bowl, não são apenas referência rural. Eles evocam uma história de exploração, trabalho forçado e poder nas Américas.
O algodão não é neutro. A cana também não.
Da plantação à estrutura
Cana e algodão ajudaram a desenhar o lugar que a América Latina ocupou no mundo: produzir para fora, exportar matéria-prima, depender de centros de poder externos.
Durante séculos, a lógica foi essa: grandes extensões de terra voltadas à monocultura. Produzir açúcar, algodão, depois soja — mas nem sempre organizar o território para alimentar a própria população com autonomia. Segurança alimentar não era prioridade. Exportar, sim.
Essa lógica se atualizou ao longo do século XX. É nesse terreno que a disputa entre Estados Unidos e China ganha nitidez. Os EUA consolidaram influência por meio de acordos comerciais, controle financeiro e cadeias produtivas. A China entrou nas últimas décadas com outra estratégia: infraestrutura, crédito, energia, cooperação agrícola.
Quando Bad Bunny surge entre canaviais e amarra um cordão de algodão à cintura, ele traz essa história para o centro da cena. O espetáculo é pop. O fundo é estrutural.
Porto Rico e a questão da comida
Porto Rico foi organizado durante décadas em torno da cana-de-açúcar. A prioridade era exportar.
Hoje, a ilha importa cerca de 80% dos alimentos que consome. A dependência ficou evidente após o furacão Maria, em 2017, quando o colapso logístico deixou prateleiras dos supermercados vazias. A Lei Jones, dos EUA, encarece o transporte porque obriga que mercadorias levadas entre portos estadunidenses (como os de Porto Rico) sejam transportadas por navios do próprio país, o que reduz as opções e aumenta os custos.
Há iniciativas para fortalecer a produção local, mas a herança da monocultura pesa. Quando cana e algodão aparecem no palco do Super Bowl, falam também de soberania — inclusive da soberania sobre o que se come.
Segurança alimentar como projeto de Estado
Enquanto boa parte da América Latina foi moldada pela monocultura voltada à exportação, a China construiu outro caminho. Em 2019, publicou o livro branco Food Security in China, deixando claro que comida é questão de Estado.
Desde 1949, com a fundação da República Popular da China, a produção de alimentos é tratada como base da estabilidade nacional. A diretriz fala em “autossuficiência básica em grãos e segurança absoluta dos alimentos essenciais”. Proteger terras cultiváveis, investir em tecnologia rural e manter a produção doméstica como eixo central. Segurança alimentar, aqui, é soberania.
Essa estratégia nacional de soberania alimentar também se conecta ao combate à pobreza. Beijing proclamou, em 2021, uma “vitória completa” sobre a pobreza extrema no país. No balanço da campanha mais recente, o governo informou ter retirado quase 99 milhões de pessoas da pobreza rural e eliminado 832 distritos oficialmente classificados como pobres.
Esse resultado se soma a um processo histórico mais amplo: ao longo de várias décadas de políticas de desenvolvimento lideradas pelo Estado, a China retirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza, alcançando as metas de redução da pobreza da Agenda 2030 da ONU com uma década de antecedência. Trata-se de uma das maiores reduções de pobreza da história moderna.
O contraste com a história latino-americana é evidente. E é por isso que a disputa por influência na região passa também por acordos agrícolas, infraestrutura portuária e tecnologia para o campo.
A questão não é apenas quem compra soja ou açúcar.
É quem define as regras do jogo alimentar.
China, EUA e o novo tabuleiro
Em dezembro de 2025, Beijing publicou o 3º Documento sobre a Política da China para com a América Latina e o Caribe, reafirmando cooperação em infraestrutura, desenvolvimento, agricultura e conectividade.
O comércio entre China e América Latina ultrapassou US$ 500 bilhões em 2024. Projetos como o megaporto de Chancay, no Peru, ilustram uma estratégia que combina logística e reorganização de cadeias produtivas. No 4º Fórum Ministerial China-CELAC, em Beijing, o presidente chinês, Xi Jinping, anunciou novas linhas de crédito em yuan e iniciativas de cooperação regional.
Já os Estados Unidos falam em segurança hemisférica. Na Estratégia de Segurança Nacional, Washington volta a tratar a América Latina como parte de sua “esfera natural de segurança” — linguagem que ecoa a Doutrina Monroe e que nada mais é do que deixar claro que o continente é quintal de Washington. O eixo México–Caribe–América Central segue central, mas o que aparece é contenção geopolítica.
Se Beijing fala em multipolaridade, Washington fala em bloqueio e vigilância. Projetos distintos, linguagens distintas.
Cuba no centro da tensão
No meio desse tabuleiro está Cuba. O embargo econômico imposto pelos EUA desde os anos 1960 marcou profundamente a estrutura produtiva da ilha e afetou também a segurança alimentar. Cuba importa grande parte do que consome e enfrenta crises recorrentes de abastecimento.
Havana busca diversificar parceiros para ampliar sua margem de manobra. Beijing tem reiterado apoio à soberania da ilha e oposição a sanções unilaterais. Em janeiro, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou que Beijing “condena firmemente” as medidas de Washington e instou os EUA a “parar de privar o povo cubano de seus direitos à subsistência e ao desenvolvimento”.
O discurso foi acompanhado por medidas concretas: envio de 30 mil toneladas de arroz e aprovação de assistência financeira estimada em cerca de US$ 80 milhões para necessidades urgentes.
No último 23 de fevereiro, o embaixador da China em Cuba, Hua Xin, comentou a entrega e a instalação de equipamentos de tecnologia fotovoltaica enviados pela potência asiática à ilha caribenha. Segundo o diplomata, “os equipamentos fotovoltaicos doados pela China estão chegando e sendo instalados nas diferentes províncias cubanas para ajudar na transição energética e aliviar a complexa situação atual”. Entre os locais beneficiados estão policlínicas, lares maternos e de idosos, funerárias e outras instituições, como o lar de meninas, meninos e adolescentes sem cuidados parentais.
No centro dessa tensão, segurança alimentar deixa de ser conceito técnico e vira questão de sobrevivência econômica.
Do figurino à geopolítica
Quando Bad Bunny coloca canaviais no palco e amarra um cordão de algodão à cintura, ele não evoca apenas memória cultural. Ele reinscreve território e história no espaço mais simbólico da indústria cultural dos Estados Unidos.
A disputa por soberania na América Latina passa por portos, alimentos, crédito, terra e cadeias produtivas.
O palco era o Super Bowl.
Mas a história que atravessava aquele figurino não era apenas cultural.
Era geopolítica.
E talvez seja por isso que a China assistiu — e reagiu.
* Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
