Saiba como a moda se encontra com a política na jornada chinesa pela modernização rural, que vai muito além da infraestrutura
Enquanto a China se prepara para o 15º Plano Quinquenal (2026–2030), os balanços do plano anterior (2021–2025) ajudam a compreender, de forma concreta, o que significa a modernização chinesa. Entre os avanços mais relevantes estão a revitalização rural e a transformação da agricultura e das áreas do interior.
Esse processo, no entanto, não se resume a máquinas, estradas ou estatísticas econômicas. Ele também envolve um movimento menos visível — e profundamente simbólico: o resgate de saberes ancestrais ligados às manualidades, historicamente preservados pelas mulheres.
Saberes femininos como política de desenvolvimento
Em diversas regiões rurais, técnicas tradicionais como bordado, tecelagem e tingimento artesanal deixaram de ser vistas apenas como herança cultural. Elas passaram a integrar políticas públicas de desenvolvimento, geração de renda e permanência no campo. Conhecimentos transmitidos de mãe para filha tornaram-se instrumentos concretos de combate à pobreza.
O caso do bordado da etnia Miao é exemplar. Ao transformar um saber feminino ancestral em atividade produtiva estruturada, comunidades inteiras conseguiram sair da extrema pobreza sem abrir mão de sua identidade cultural. Aqui, modernizar não significou apagar o passado, mas reorganizar memória, trabalho e o papel das mulheres no centro da revitalização rural.
Manualidade, memória e desenvolvimento
Ao visitar comunidades da etnia Miao, na província de Guizhou, em 3 de fevereiro de 2021, o presidente chinês, Xi Jinping, destacou o bordado tradicional como exemplo de como cultura, trabalho manual e política pública podem caminhar juntos.
Na ocasião, Xi Jinping afirmou que “os tesouros da cultura étnica também são o orgulho do mundo” e que o bordado Miao é, ao mesmo tempo, tradição e indústria — capaz de preservar a cultura e impulsionar o desenvolvimento rural.
Para o líder chinês, práticas como o bordado Miao, historicamente dominadas por mulheres, não devem ser tratadas como relíquias do passado. Elas são atividades produtivas vivas: preservam a memória coletiva, geram renda, reorganizam a vida comunitária e fortalecem a permanência no campo sem romper com a identidade local.
“Gotas constantes perfuram a pedra”
No Brasil, diz-se que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. A imagem dialoga diretamente com uma ideia recorrente no pensamento de Xi Jinping sobre o combate à pobreza: mudanças estruturais não se produzem por rupturas instantâneas, mas por esforços persistentes, acumulados dia após dia. Não por acaso, há na cultura chinesa um ditado semelhante — “gotas constantes perfuram a pedra” — que ajuda a traduzir essa concepção de transformação gradual, paciente e sustentada no tempo.
Esse princípio atravessa a atuação de Xi Jinping desde os anos 1990, quando trabalhou diretamente em regiões rurais empobrecidas, e reaparece décadas depois nas políticas nacionais de erradicação da pobreza e revitalização rural. Nos balanços mais recentes, a ênfase não está apenas no crescimento econômico ou na infraestrutura, mas também no resgate organizado de saberes locais como base do desenvolvimento.
Nesse modelo, a manualidade deixa de ser vista como vestígio do passado e passa a ocupar um lugar central na modernização rural chinesa — especialmente quando colocada nas mãos das mulheres, que transformam conhecimento ancestral em autonomia econômica, reconhecimento social e futuro no território.
Quando a política encontra o fio e a agulha
Eu conheci essa dinâmica de perto. Vi com meus próprios olhos como ela se manifesta no cotidiano das comunidades rurais. Em março de 2024, estive na Vila Mengwu Miao, no Condado Autônomo da Etnia Miao de Rongshui, na Região Autônoma da Etnia Zhuang de Guangxi, no sul da China, integrando uma visita de jornalistas estrangeiros convidados a acompanhar experiências locais de combate à pobreza.
Caminhei pela vila, conversei com moradores, observei o trabalho das mulheres e a forma como cultura, renda e política pública se entrelaçam na prática. À época, eu era editora da coluna China em Foco, da Revista Fórum, e escrevi sobre essa vivência — não como conceito, mas como algo que vi, ouvi e senti no território.
Na vila, a modernização rural não se apresentava como ruptura, mas como reorganização do que já existia. Mulheres trabalhavam com bordados, tecidos, aplicações em prata e vestimentas tradicionais — técnicas herdadas de mães e avós — agora integradas a políticas públicas de turismo cultural, geração de renda e comércio eletrônico. As roupas deixaram de circular apenas em festas e rituais e passaram a ocupar vitrines, plataformas digitais e cadeias produtivas organizadas.
Mais do que cenário turístico, a vila funciona como espaço produtivo. O vestuário tradicional Miao, com seus bordados minuciosos e símbolos ancestrais, tornou-se eixo econômico e ferramenta de permanência no território. Nesse processo, a manualidade feminina — historicamente associada à memória e ao cuidado — foi reposicionada no centro da estratégia de desenvolvimento.
A experiência em Mengwu ajuda a compreender, em escala humana, o que os balanços nacionais expressam em números: a modernização chinesa, especialmente no campo, avança não apenas com máquinas e infraestrutura, mas também com o reaproveitamento organizado de saberes tradicionais, transformados em trabalho, renda e futuro.
O bordado Miao: quando a história é costurada
O bordado Miao é uma arte ancestral transmitida de geração em geração, historicamente dominada por mulheres. Durante séculos, os Miao não tiveram um sistema de escrita amplamente utilizado. Por isso, o bordado assumiu uma função singular: tornou-se um “livro visual”, capaz de registrar história, crenças e visão de mundo por meio de fios, cores e símbolos.
Cada peça bordada carrega narrativas de migração, mitos de origem, relações com a natureza, rituais e transformações sociais. Bordar, nesse contexto, é também lembrar, narrar e ensinar.
Embora o bordado tenha longa tradição na China, registros históricos sugerem que ele já existia no Período dos Estados Combatentes (475 a.C.–221 a.C.), conforme referências do Livro de Han. Sem escrita formal, o bordado passou a cumprir o papel de arquivo cultural vivo.
Os motivos — flores, borboletas, pássaros e animais mitológicos — expressam crenças espirituais, aspirações e eventos marcantes da vida comunitária. Por isso, o bordado é frequentemente descrito como uma “canção silenciosa” costurada no tecido.
Como se faz um bordado Miao
Materiais, técnicas, cores e ferramentas
O bordado Miao é um trabalho minucioso, feito quase sempre à mão, que combina técnica, paciência e memória. Cada peça nasce de um processo longo, que começa muito antes da agulha tocar o tecido.
Tecidos
Tradicionalmente, utilizam-se tecidos de algodão ou linho, muitas vezes produzidos manualmente. Em algumas regiões, o pano passa antes por processos de batik — técnica de tingimento com cera quente — criando padrões que dialogam com o bordado.
Fios
Os fios eram, historicamente, feitos de seda ou algodão, tingidos artesanalmente. Hoje, projetos voltados ao mercado também utilizam fios industriais, mas o gesto, o desenho e a execução permanecem manuais.
Pigmentos e cores
As cores têm forte valor simbólico. Azul, vermelho, branco, preto e amarelo são predominantes.
Tradicionalmente, muitos pigmentos vêm da natureza:
● o azul índigo, extraído de plantas locais;
● tons escuros obtidos de cascas de árvores e folhas;
● o vermelho e o amarelo aparecem tanto em fios tingidos quanto em aplicações posteriores.
As cores não são aleatórias: indicam idade, estado civil, região de origem e etapas da vida.
Ferramentas
O bordado Miao utiliza instrumentos simples, mas exige extrema precisão:
● agulhas finas de diferentes espessuras;
● tesouras pequenas;
● moldes mentais — raramente há desenho prévio no tecido.
Muitas bordadeiras trabalham sem risco desenhado, bordando diretamente a partir da memória e do aprendizado oral.
Técnicas
Existem dezenas de pontos, que variam conforme a região. Entre eles:
● pontos em relevo, que criam efeitos tridimensionais;
● aplicações sobrepostas, com camadas de tecido costuradas;
● bordados densos, que podem cobrir quase toda a superfície da roupa.
Um traje feminino completo pode levar meses ou até anos para ser finalizado.
Aprendizado
O aprendizado começa cedo. Meninas costumam aprender a bordar ainda na infância, observando mães, avós e outras mulheres da comunidade. Bordar é parte da formação social: ensina paciência, disciplina, pertencimento e continuidade.
Do ritual ao mercado
Tradicionalmente, essas roupas eram feitas para uso próprio, casamentos, festivais ou rituais. Hoje, as técnicas também são aplicadas a bolsas, acessórios, vestuário contemporâneo e produtos criativos voltados ao turismo e ao comércio eletrônico.
O que muda é o destino da peça — não o saber que a produz.
Quem são os Miao
Os Miao são um dos grupos étnicos oficialmente reconhecidos na China. Vivem principalmente nas regiões montanhosas do sudoeste do país, com maior concentração na província de Guizhou, além de áreas de Hunan, Yunnan e Guangxi. Comunidades Miao também estão presentes em países vizinhos do Sudeste Asiático, como Vietnã, Laos e Tailândia, onde são conhecidos como Hmong.
Ao longo da história chinesa, o termo “Miao” foi utilizado para designar diferentes povos montanheses com modos de vida distintos da maioria Han. Apesar da diversidade interna, compartilham elementos culturais fortes, como língua própria (com vários dialetos), música, dança, rituais religiosos e um artesanato altamente elaborado.
Nesse universo cultural, as mulheres sempre ocuparam um papel central. Foram elas as principais responsáveis pela produção das roupas, ornamentos e objetos cerimoniais, dominando técnicas como bordado, tecelagem, batik e a confecção de joias em prata. Essas práticas funcionam como marcadores de identidade, pertencimento e memória coletiva.
Por Iara Vidal, pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
