DIÁRIO DA CHINA-China em dois tempos

Um diálogo entre 1977 e 2026 para entender as transformações políticas, sociais e tecnológicas do país que mais mudou no mundo

No dia 16 de julho de 1977, o jornalista e cartunista Henfil embarcou para uma viagem de 14 dias à China. Ele contou essa aventura no saboroso Henfil na China (antes da Coca-Cola), lançado em 1980 pela Editora Codecri, a mesma do Pasquim. Sua visita aconteceu menos de um ano depois da morte de Mao Zedong, num país que ainda tentava encontrar um novo rumo.Em 16 de julho de 2022, exatamente 45 anos depois, eu também embarquei para a China, em plena pandemia, para cobrir o 20º Congresso Nacional do Partido Comunista da China (PCCh). Fiquei no país até dezembro daquele ano.

Durante os preparativos da viagem, recebi de uma amiga, Alzimar Ramalho, algumas páginas do livro de Henfil, nas quais ele descrevia como os chineses se vestiam naquele período. De volta ao Brasil, ela me presenteou com seu exemplar — um gesto tão simbólico quanto carinhoso.

Início de uma nova aventura na China

No dia 21 de novembro de 2025, embarquei novamente rumo à China, desta vez para começar uma nova vida em Beijing. Hoje sou editora da CGTN em Português, parte do China Media Group (CMG).

Voltar para cá, agora para morar, é uma experiência que sei que me transformará profundamente. E por isso trouxe comigo o livro de Henfil — meu companheiro nesta nova temporada chinesa.

Decidi “conversar” com ele, como quem cruza dois tempos: a China “antes da Coca-Cola”, que ele conheceu em 1977, e a China de 2026, com carros elétricos, inteligência artificial, trens de alta velocidade, moda digital e uma velocidade de mudança que às vezes parece ficção científica.

Henfil escreve com humor, afeto e as marcas do seu próprio tempo. Ler esse livro hoje exige cuidado e contexto. Mas também abre espaço para reflexões deliciosas.

Quando Henfil pousou na China que amanhecia

Relendo suas crônicas, fica claro que Henfil chegou ao país exatamente no momento da queda do Bando dos Quatro, quando a China tentava se levantar após uma década de turbulências profundas.

Era uma China que ainda vivia tensão constante com a União Soviética, então seu vizinho mais poderoso e seu maior rival político. Essa disputa só perderia força anos mais tarde, com o fim da URSS em 1991.

O país também revisava com prudência sua relação com o Japão, tratava Taiwan como questão central de sua integridade territorial e tentava reorganizar a vida cotidiana depois de anos de incerteza.

Olhar para tudo isso desde 2026 torna o contraste ainda mais evidente. Hoje, a China não busca apenas estabilidade: ela se projeta como potência tecnológica, diplomática e econômica; influencia a balança de poder na Ásia; e reafirma todos os dias que a questão de Taiwan segue sendo sua linha vermelha.

O relacionamento com o Japão, que em 1977 era marcado por reconstrução e cautela, voltou ao centro das atenções. As declarações recentes da primeira-ministra Sanae Takaichi, ao chamar a situação em Taiwan de “crise de sobrevivência do Japão”, reacenderam tensões e foram entendidas por Beijing como interferência direta em sua soberania. A recusa de Takaichi em rever suas palavras só aumentou o desgaste diplomático e mostrou como o tabuleiro asiático segue dinâmico e sensível.

No cenário eurasiático, a mudança também é profunda. Se antes a China mantinha uma rivalidade intensa com a União Soviética, hoje constrói uma parceria estratégica com a Rússia, baseada em cooperação energética, tecnológica, militar e diplomática.

Se, em 1977, a China ainda procurava reencontrar seu rumo, em 2026 esse rumo está claramente definido — e o mundo inteiro precisa lidar com isso.

Do país que Henfil viu ao país que vejo hoje

Comparar a China de 1977 com a China de 2026 é como comparar dois planetas. O país passou por transformações profundas que atingiram a política, a economia, a vida cotidiana, as cidades, a ciência e sua presença no mundo.

A urbanização acelerada mudou completamente o cotidiano das pessoas; a pobreza extrema foi erradicada; as tecnologias digitais passaram a fazer parte da vida diária; e a China se tornou um ator indispensável nas discussões globais sobre energia, comércio, clima, inovação e infraestrutura.

O país também ampliou sua presença internacional por meio de cooperação Sul-Sul, iniciativas de conectividade e participação mais ativa em temas globais.

A longa travessia da política chinesa

Toda essa transformação atravessa as reformas lançadas por Deng Xiaoping, passa pelas modernizações das décadas seguintes e chega até a atual liderança de Xi Jinping, marcada por ambições tecnológicas, metas climáticas, fortalecimento institucional, busca por autossuficiência e uma visão de desenvolvimento voltada para o longo prazo.

Quinze planos, um país em movimento

Ao fundo dessa história estão os Planos Quinquenais, que moldam a China desde os primeiros anos da República Popular, nos anos 1950. Não são apenas documentos técnicos: funcionam como mapas de prioridades, escolhas e rumos.

Entre 1977 e 2026, esses planos acompanharam a passagem de um país majoritariamente rural para uma potência industrial e tecnológica. Nos próximos textos, vou explorar esse processo com calma — não como uma lista de metas, mas como uma forma de entender por que a China tomou os caminhos que tomou.

China em dois tempos

É nesse diálogo entre passado e presente — entre a China que Henfil encontrou e a China que encontro hoje, aqui de Beijing — que esta série se constrói. Uma tentativa de entender não só como o país mudou, mas como essas mudanças ajudam a explicar o mundo em que vivemos.

Há muitas histórias, comparações e curiosidades para vir pela frente.

Acho que essa prosa — entre 1977 e 2026, entre Henfil e eu — tem tudo para ser divertida, instigante e cheia de descobertas.

Vem comigo nessa conversa?

Beijinhos de Beijing!

CRI Português

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